A Ascensão da IA nos Relatórios de Risco Global de 2026


Num escritório em Zurique, em janeiro de 2026, um analista risca a palavra "emergente" de um relatório. A Inteligência Artificial já não é uma ameaça futura. É o presente. O Allianz Risk Barometer 2026, uma pesquisa com milhares de especialistas em risco em todo o mundo, acabara de mostrar algo inédito: a IA subiu do 10º para o 2º lugar na lista de maiores preocupações para os negócios, superada apenas por incidentes cibernéticos. A distância entre os dois? Apenas 10 pontos percentuais. Uma década atrás, a IA mal figurava nas discussões. Agora, ela remodela a paisagem do risco global com uma velocidade que desafia a governança, a geopolítica e a própria noção de estabilidade.



O Cenário Competitivo: Uma Era Definida por Rivalidade


O Global Risks Report 2026 do Fórum Econômico Mundial não fala em cooperação. O título é direto: "A Era da Competição". A moldura é geoeconómica. Conflitos entre grandes potências, fragmentação do comércio e armamento de cadeias de abastecimento formam o pano de fundo imediato. Neste cenário volátil, a IA não opera no vácuo. Ela é o acelerador, a arma e a vulnerabilidade. O relatório aponta que 68% dos especialistas preveem uma ordem global fragmentada e multipolar na próxima década. A IA é simultaneamente um produto e um combustível desta fragmentação.



Os números contam uma história de ascensão meteórica. No barómetro da Allianz, cerca de metade dos entrevistados ainda vê os benefícios da IA superando os riscos. Mas uma minoria significativa, de 20%, discorda veementemente. Esta cisão reflete uma realidade mais ampla: estamos a navegar num território desconhecido, onde o potencial para produtividade colossal coexiste com ameaças existenciais à segurança, ao emprego e à verdade factual. O risco cibernético, líder há cinco anos, agora está inextricavelmente ligado ao avanço da IA. São faces da mesma moeda digital.



"Não estamos a lidar com uma tecnologia singular, mas com um catalisador sistémico. A IA amplifica todos os outros riscos, da desinformação à insegurança cibernética, dentro desta nova 'Era da Competição'", afirma um analista sénior do Fórum Económico Mundial, com base em Genebra.


A Corrida que Redefine o Poder


Enquanto os relatórios são publicados, a geopolítica da IA já entrou numa fase crítica. O Atlantic Council delineia para 2026 uma batalha de modelos, literalmente. De um lado, os Estados Unidos promovem a exportação de seus "tech stacks" e o conceito de "IA soberana". Do outro, a China avança com uma estratégia astuta de modelos de código aberto, como o DeepSeek, que oferecem capacidades avançadas a baixo custo. Esta abordagem é particularmente sedutora para países do Sul Global, que podem adotar infraestruturas de IA sem se prenderem a um ecossistema tecnológico ocidental.



Esta competição tem endereço concreto. O Centro Stimson, no seu relatório Top Ten Global Risks for 2026, coloca a corrida EUA-China pela supremacia em IA no centro das atenções. Os fundadores de empresas de IA voltaram a soar o alarme sobre riscos de extinção. Mas a preocupação imediata é económica. O Fundo Monetário Internacional estima que a IA impactará 60% dos empregos em economias avançadas. Paradoxalmente, esta mesma tecnologia é responsável por alimentar 40% do crescimento do PIB dos EUA e um espantoso 80% do crescimento do mercado de ações americano, um valorização que o Stimson considera descolada dos ganhos de produtividade ainda tangíveis.



"A corrida não é apenas por melhores algoritmos; é pelo controlo da próxima camada de infraestrutura crítica global. Quem definir os padrões da IA em 2026 moldará os fluxos de dados, comércio e influência para as próximas décadas", analisa uma especialista em geotecnologia do Atlantic Council, com base em Washington D.C.


Impacto Sistémico: Para Além do Código


Os efeitos transbordam do digital para o físico. Ataques cibernéticos a sistemas de navegação de navios de carga, potencialmente potenciados por IA, ameaçam rotas comerciais globais. A desinformação gerada por IA, hiper-personalizada e emocionalmente carregada, corrói a coesão social e a confiança nas instituições. O relatório da Zurich Insurance em 2026 é claro: a convergência de IA e computação quântica não apenas remodelará mercados laborais, mas exacerbará desigualdades económicas e redefinirá necessidades de infraestrutura. A resiliência deixou de ser um conceito teórico para se tornar um imperativo de investimento urgente.



Um detalhe crucial muitas vezes perdido nas manchetes: a percepção de risco varia dramaticamente com a geografia. Enquanto os riscos cibernéticos lideram nos Estados Unidos, Europa e Índia, a IA já é a principal preocupação de risco de negócios na Austrália, Brasil e Colômbia. Esta disparidade revela como diferentes economias estão a experienciar a transição. Países em desenvolvimento podem ver na IA uma ferramenta para saltar etapas de desenvolvimento, mas também podem enfrentar disrupções no emprego de forma mais abrupta, com menos redes de segurança social.



A questão que fica no ar, depois de analisar estes dados iniciais de 2026, não é *se* a IA domina o panorama de riscos. Ela já o faz, mas de uma forma mais insidiosa e interligada do que um simples primeiro lugar numa lista poderia sugerir. A IA é o novo sistema operacional das ameaças globais. O que está em jogo não é apenas a segurança de dados ou a eficiência de processos. É a estrutura da competição económica internacional, a viabilidade dos modelos democráticos perante avalanches de desinformação e a própria trajectória da desigualdade humana numa era de inteligência amplificada por máquinas. Os relatórios de 2026 funcionam como um diagnóstico. A prescrição, no entanto, ainda está a ser escrita, entre Genebra, Washington e Pequim, num ritmo que tenta, muitas vezes em vão, acompanhar o código que acelera tudo.

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O Que Realmente Está em Jogo: A Reconfiguração do Poder


A significância dos relatórios de 2026 transcende a mera listagem de ameaças. Eles funcionam como um espelho distorcido do nosso tempo, refletindo uma transição de poder profunda e caótica. O risco não é a tecnologia em si, mas a incapacidade das nossas estruturas políticas, legais e sociais de assimilá-la. A IA tornou-se a linguagem comum da competição geoeconómica, o novo campo de batalha onde se disputam influência, riqueza e controlo estratégico. A convergência com cibersegurança, destacada pelo Allianz Risk Barometer, não é acidental; é sintomática de uma era onde o domínio digital é pré-condição para a soberania. O que está em jogo, portanto, é a própria arquitetura da ordem global pós-Guerra Fria, agora tensionada por algoritmos e dados.


O impacto cultural já é palpável. A desinformação gerada por IA corrói a epistemologia social—o acordo básico sobre o que é facto. A polarização, já um risco elevado no relatório do Fórum Económico Mundial, é alimentada por ecossistemas de informação personalizados e emocionalmente manipulativos. No sector laboral, a previsão do FMI de impacto em 60% dos empregos em economias avançadas não é apenas um número económico; é uma promessa de disrupção social massiva, exigindo uma reinvenção dos contratos sociais e dos sistemas de educação e proteção que demoraram séculos a construir. A IA, nesta leitura, é um agente de aceleração histórica, forçando décadas de mudança em poucos anos.


"Estamos a tratar a IA como uma questão sectorial de tecnologia, quando na realidade é uma força de reordenamento civilizacional. Os relatórios de 2026 mostram que os riscos são sistémicos: tocam na economia, na geopolítica, na psicologia das massas e na segurança nacional ao mesmo tempo. Ignorar esta interconexão é o maior risco de todos." — Analista do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, com base em Washington.


As Lacunas Perigosas nas Análises de Risco


Apesar da sua utilidade, estes relatórios globais carregam vícios de origem perigosos. O primeiro é um otimismo tecnocrático implícito. Eles catalogam riscos como se fossem problemas de gestão, passíveis de mitigação com melhores quadros regulatórios e colaboração público-privada. Esta visão subestima grotescamente a natureza política e ideológica da corrida pela IA. A China não está a desenvolver modelos de código aberto como o DeepSeek por puro altruísmo tecnológico; está a travar uma guerra de padrões pelo controlo da infraestrutura digital do Sul Global. Os EUA, por sua vez, exportam "pilhas tecnológicas" soberanas como ferramentas de influência. Os relatórios falam de "cooperação" necessária, mas os dados apontam para uma fragmentação irreversível.


Outra falha crítica é a perspetiva predominantemente corporativa e ocidental. O Allianz Risk Barometer espelha as preocupações de gestores de risco de grandes empresas. Onde está a voz dos trabalhadores que serão deslocados? Das comunidades no Congo que extraem o cobalto necessário para este boom? O risco é definido pela continuidade dos negócios e da estabilidade geopolítica das potências, não pelo bem-estar humano global. Além disso, há uma contradição não resolvida nos dados: se a IA impulsiona 80% do crescimento do mercado de ações dos EUA, como podemos esperar que as mesmas instituições financeiras que lucram com esta bolha sejam agentes sérios de gestão do seu risco sistémico? É como pedir a um pirómano para desenhar o código de segurança contra incêndios.


A focalização na IA também pode criar uma cegueira de atenção. Enquanto todos olham para os algoritmos, riscos de longo prazo como as alterações climáticas ou a perda de biodiversidade podem ser relegados na agenda política. A queda das catástrofes naturais para o 5º lugar no barómetro da Allianz, num planeta em aquecimento acelerado, é um dado perturbador que merecia mais escrutínio. A IA é o risco brilhante e novo que ofusca ameaças mais lentas, mas igualmente mortais.



O ano de 2027 já está a ser moldado pelos diagnósticos de 2026. A Comissão Europeia deverá iniciar em junho de 2027 a primeira grande revisão do seu Ato de IA, um teste crucial para a capacidade regulatória de acompanhar a tecnologia. Nos EUA, espera-se que o Congresso enfrente pressões crescentes para legislar sobre responsabilidade civil por danos de IA, especialmente após algum evento de disrupção em grande escala—um "momento Chernobyl" digital que muitos especialistas consideram inevitável. Do outro lado do Pacífico, a China provavelmente lançará a próxima iteração da sua iniciativa "Made in China 2030" com a IA como núcleo, aprofundando a bifurcação tecnológica.


A previsão mais concreta é também a mais sombria: o quinto ano consecutivo de aumento nas insolvências empresariais globais em 2026, como apontado pela Allianz, será seguido por mais um em 2027. A IA atuará como um divisor águas, concentrando lucros em poucas empresas tecnológicas enquanto esmaga setores inteiros que não conseguirem adaptar-se. A resiliência deixará de ser um jargão de relatório para se tornar o principal diferenciador de sobrevivência para nações e empresas. Os ganhos de mercado previstos de 11% nos EUA e 9% na Europa para 2026 mascararão uma volatilidade extrema e uma desigualdade crescente.


O analista em Zurique do nosso início não riscou a palavra "emergente" por capricho. Ele reconheceu que a fase de experimentação terminou. Agora vivemos na era das consequências. A pergunta que ficará pairando sobre Davos, sobre as salas de board corporativo e sobre os gabinetes governamentais em 2027 não é se a IA mudará tudo, mas quem será esmagado pelo seu avanço e quem terá a frieza de a governar não como uma tecnologia, mas como uma força da natureza que, pela primeira vez na história, é de nossa própria autoria.

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