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A democracia portuguesa só conheceu este cenário uma vez, em 1986. Trinta e oito anos depois, a 18 de janeiro de 2026, o país voltou a deparar-se com a necessidade de uma segunda volta presidencial. Nenhum dos onze candidatos conseguiu a maioria absoluta. O tabuleiro político, irremediavelmente fragmentado nas legislativas de 2025, confirmou a sua nova configuração. Do lado esquerdo do espectro, António José Seguro, do Partido Socialista, com 31,11% dos votos. Do lado direito, uma força que há uma década era marginal, André Ventura e o Chega, com 23,49%. Entre eles, um fosso ideológico abissal e três semanas de campanha para decidir quem substituirá Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém.
A abstenção, um persistente fantasma português, rondou os 47,65%. Mais de cinco milhões de eleitores, num universo de 11.017.202 inscritos, optaram por ficar em casa. Os números frios, contados até ao último voto em 104 dos 109 consulados, não conseguem esconder a vibração política palpável. Lisboa deu 389.637 votos a Seguro, o Porto 321.184. Na Madeira, o candidato socialista mal ultrapassou os 22%. Este não é apenas um segundo turno. É um teste de stresse à democracia portuguesa e um sinal, demasiado claro, para uma Europa onde partidos de extrema-direita já governam ou pressionam governos em Itália, França e Holanda.
O sistema político português, assente durante décadas na alternância entre o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD), deixou de existir. A prova final chegou a 18 de janeiro. Os resultados colocaram o Chega, um partido de direita radical e populista, não apenas como a segunda força no primeiro turno, mas como a única capaz de desafiar seriamente o bloco de centro-esquerda. O tradicional PSD, agora aliado ao CDS na candidatura de Luís Marques Mendes, ficou confinado a um quarto lugar humilhante, com cerca de 11%. A Iniciativa Liberal, de João Cotrim de Figueiredo, conquistou o terceiro lugar, com cerca de 17%, sugando votos do centro-direita tradicional e tornando-se o novo polo de atração liberal.
Esta fragmentação não é um acidente. É o culminar de uma década de desgaste dos partidos do sistema, crise económica pós-troika, exaustão com escândalos de corrupção e uma perceção generalizada de que as instituições não respondem às necessidades dos cidadãos. André Ventura, um ex-comentador desportivo e professor universitário, soube canalizar este descontentamento como ninguém. A sua retórica anti-sistema, focada no combate à corrupção, numa justiça mais dura e num nacionalismo cético face à União Europeia, ressoou fortemente fora dos grandes centros urbanos.
“O resultado do Chega é a consagração eleitoral de uma mudança tectónica na sociedade portuguesa. O bipartidarismo morreu. O que estamos a ver é a emergência de um novo eixo de conflito político: de um lado, uma aliança plural de centro-esquerda e, do outro, uma frente populista de direita que marginalizou completamente os partidos históricos da direita moderada”, analisa a politóloga Inês Cardoso, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
A campanha para o primeiro turno foi feroz. Seguro, um socialista de perfil mais técnico e menos carismático que o seu antecessor António Costa, tentou mobilar o eleitorado com uma mensagem de estabilidade e defesa intransigente do Estado de Direito. Ventura, por outro lado, conduziu uma campanha agressiva, com comícios de massas e um discurso direto nas redes sociais, atacando o que chama de “casta partidária”. Os outros candidatos lutaram por espaço. Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, e António Filipe, da coligação PCP/PEV, obtiveram resultados residuais, abaixo dos 3%, refletindo uma esquerda radical fragmentada e em crise de identidade.
Os mapas interativos de resultados, publicados pela RTP e pelo MAI, contam uma história de duas nações. O litoral, particularmente as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mostrou-se como o reduto de Seguro e das forças liberais. O interior e algumas regiões do sul tornaram-se terreno fértil para o Chega. Em distritos como Castelo Branco, Seguro atingiu a sua melhor percentagem nacional, 40,20%. Já em Bragança ou Santarém, a votação de Ventura disparou, por vezes superando os 30%.
Esta clivagem geográfica espelha clivagens económicas e sociais mais profundas: o Portugal dinâmico e globalizado do litoral contra o Portugal do interior, envelhecido, com serviços públicos deficitários e uma sensação crónica de abandono. A abstenção, que chegou a picos superiores a 60% em algumas freguesias, é o terceiro elemento deste mapa. É o sinal de um desencanto profundo, de uma parcela da população que não se revê em nenhum dos projetos em disputa.
“A geografia eleitoral de 2026 é um retrato da desigualdade territorial portuguesa. O Chega construiu a sua base onde o Estado está mais ausente. O seu sucesso não é apenas ideológico; é a resposta a uma falha concreta na prestação de serviços, na coesão territorial e na sensação de oportunidade. Ignorar esta dimensão material do voto no Chega é um erro grave de análise”, afirma o sociólogo Rui Costa, da Universidade do Porto.
Agora, a campanha muda de tom. O segundo turno, marcado para 8 de fevereiro, simplifica dramaticamente as escolhas. É uma eleição binária, que tenderá a polarizar ainda mais o país. O grande interrogativo paira sobre os eleitores dos candidatos derrotados. Para onde irão os mais de 600 mil votos de Luís Marques Mendes (PSD/CDS)? E os cerca de 1,1 milhão de votos de Cotrim de Figueiredo (IL)? A direita moderada e liberal enfrenta um dilema existencial: apoiar tacitamente um socialista para travar a extrema-direita ou abster-se, facilitando o caminho de Ventura para Belém?
Do lado de Seguro, o desafio é mobilizar uma coligação informal que vá desde o Bloco de Esquerda até à Iniciativa Liberal. Um exercício de equilíbrio quase impossível. Catarina Martins já declarou o seu apoio a Seguro, mas os seus eleitores, desiludidos, poderão não a seguir. A participação eleitoral será a variável decisiva. Uma abstenção alta beneficia, historicamente, candidatos com uma base mais radicalizada e mobilizada – uma vantagem clara para Ventura.
A Presidência da República em Portugal tem poderes limitados, mas não é um cargo simbólico. O Presidente pode vetar legislação, dissolver a Assembleia da República (um poder crucial num parlamento fragmentado) e é o Comandante Supremo das Forças Armadas. A eleição de um chefe de Estado do Chega representaria uma normalização política sem precedentes da extrema-direita, alteraria o equilíbrio de poderes e enviaria um tremor sísmico através das capitais europeias. O segundo turno de 2026 não decide apenas um presidente. Define a identidade política de Portugal para a próxima década.
Os números totais da primeira volta, apurados a 20 de janeiro, não deixam margem para interpretações românticas. São a radiografia crua de uma nação politicamente dividida em quatro blocos de dimensão semelhante. António José Seguro liderou, mas os seus 1.754.904 votos representam apenas 31,11% de um eleitorado que se mostrou profundamente descrente. Mais revelador do que a sua vitória foi a confirmação do Chega como o segundo polo nacional. André Ventura, com 1.326.648 votos (23,52%), não é mais um protesto isolado. É uma alternativa concreta para quase um quarto dos portugueses que foram às urnas.
O terramoto, porém, ocorreu no centro e na esquerda. A candidatura de João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, capturou 16,00% dos votos, um resultado sólido que consolida o liberalismo como terceira força nacional e esvazia por completo o espaço do centro-direita tradicional. A debacle do PSD é histórica. Luís Marques Mendes, representando a coligação PSD/Aliança Democrática, colheu apenas 11,30% (637.394 votos). Um partido que deu dois presidentes à democracia, que governa o país, ficou fora da segunda volta presidencial. O sistema bipolar morreu e foi enterrado com honras de estado a 18 de janeiro de 2026.
"O PSD foi escolhido para governar o país e é isso que fará nas próximas três semanas, como de resto nos próximos anos. O PSD estará a governar Portugal, as regiões autónomas, a maioria das câmaras municipais, no decurso de uma escolha legítima, livre, democrática dos portugueses." — Porta-voz do PSD, em declaração ao Euronews a 19 de janeiro de 2026.
A declaração do PSD, tentando separar o governo da eleição presidencial, soa a um exercício de negação. Como pode um partido que governa a nação ser rejeitado por quase nove em cada dez eleitores na escolha do seu representante máximo? A resposta reside na personificação do voto. Os portugueses distinguem, com uma clareza brutal, a gestão técnica de um governo da escolha simbólica de um presidente. E no plano simbólico, o PSD já não representa nada para uma maioria esmagadora.
A abstenção, fixada em 47,65%, é a outra grande vencedora silenciosa. São 5.250.145 portugueses que, estando inscritos, decidiram não escolher. Este número, superior ao total de votos de qualquer candidato, é um buraco negro na análise política. Representa desencanto, cansaço, ou uma rejeição ativa de todas as opções em cima da mesa? Em democracias maduras, uma abstenção a rondar os 50% num pleito desta magnitude é um sinal de alarme severo. Indica que o contrato social entre os cidadãos e a classe política está profundamente danificado.
Enquanto a direita se fragmentava em três projetos distintos, a esquerda radical simplesmente desintegrou-se. Os resultados são catastróficos. Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, ficou-se pelos 2,06%. António Filipe, do PCP, obteve 1,64%. Jorge Pinto, do Livre, não passou dos 0,68%. Combinados, estes três candidatos não chegaram a 5% dos votos. É o colapso final de um projeto que, há uma década, parecia capaz de disputar o poder. O eleitorado de esquerda radical migrou em massa para Seguro, entendendo o segundo turno como um dique de contenção necessário contra Ventura, ou engrossou as fileiras da abstenção.
E depois há o caso, peculiaríssimo, de Henrique Gouveia e Melo. O ex-almirante que liderou a task-force da vacinação contra a COVID-19 entrou na corrida como candidato "fora do sistema", apoiado por uma miríade de pequenos grupos cívicos e com um discurso de união técnica. As sondagens chegaram a colocá-lo como favorito. O resultado final foi um balde de água fria: 12,32% (695.091 votos). A mensagem é clara: os portugueses, neste momento de clivagem profunda, não procuram tecnocratas apartidários. Procuram bandeiras ideológicas definidas. A janela para candidaturas presidenciais "acima da política" fechou-se.
A vitória de André Ventura na Região Autónoma da Madeira, com 33,40% dos votos, não é um dado estatístico. É um símbolo de conquista. A Madeira foi, durante gerações, um feudo inexpugnável do PSD, gerido quase como um património familiar. O facto de o Chega lá ter vencido, enquanto o candidato apoiado pelo PSD nacional ficava em quarto lugar a nível nacional, ilustra uma transferência de lealdades políticas de consequências imprevisíveis. Não se trata apenas de uma mudança de voto. Trata-se da transferência de um capital de confiança histórico de um partido do sistema para um partido anti-sistema.
Esta geografia eleitoral desenha um novo país. O litoral urbano e mais educado dividiu-se entre Seguro e Cotrim de Figueiredo. O interior, o sul alentejano e partes do norte industrializado abraçaram Ventura. Onde o Estado se sente mais distante, onde os serviços públicos definham, onde a sensação de abandono é crónica, o discurso populista e nacionalista do Chega encontrou solo fértil. O mapa de resultados do Observador e da CNN Portugal é, linha a linha, um mapa das desigualdades territoriais e da falha da coesão nacional. O centralismo de Lisboa não é apenas uma crítica política; é, para estes eleitores, uma experiência quotidiana.
"A minha candidatura sempre foi apresentada como uma alternativa, apesar de toda a conversa da extrema-direita e da manipulação das sondagens." — André Ventura, líder do Chega, na noite eleitoral.
A afirmação de Ventura é um exercício de enquadramento político magistral. Ao rejeitar o rótulo de "extrema-direita" e falar em "manipulação das sondagens", ele alimenta a narrativa de que é uma vítima do establishment mediático, ao mesmo tempo que se apresenta como a única "alternativa" real. É uma retórica que funciona porque mexe com duas cordas sensíveis: a desconfiança nas instituições e o desejo de mudança radical. O seu sucesso na Madeira prova que este discurso consegue penetrar até nos redutos mais consolidados do poder tradicional.
E o que significa, no fundo, este segundo turno? É a primeira vez, em quarenta anos de democracia, que um candidato apoiado por um partido de extrema-direita chega à final de uma eleição presidencial. O paralelo histórico inevitável é 1986, quando Mário Soares disputou e venceu a segunda volta contra Diogo Freitas do Amaral. Na altura, a eleição era vista como um teste à consolidação democrática após o PREC. Em 2026, o teste é diferente: é um teste à resiliência das instituições perante a erosão provocada pelo populismo.
A campanha para o segundo turno, que começou oficialmente a 19 de janeiro, já não é sobre programas. É sobre fronteiras. De um lado, Seguro tentará erguer uma "frente republicana" ampla, que vá desde o PCP até à Iniciativa Liberal. Do outro, Ventura tentará consolidar o seu bloco de 23% e capturar os descontentes do PSD e os liberais mais conservadores. O grande trunfo de Ventura é a mobilização emocional. O grande trunfo de Seguro é o medo que a sua eleição inspira nos setores moderados.
"Este é apenas o segundo segundo-turno da nossa democracia. O primeiro, em 1986, definiu o rumo do pós-Revolução. Este, em 2026, definirá o rumo do pós-bipartidarismo. É uma eleição fundacional de um novo ciclo político, tão importante quanto a primeira." — Ana Jorge, historiadora política, em análise ao Diário de Notícias.
O drama reside nos eleitores do centro-direita derrotado. Para onde vão os 637 mil votos de Marques Mendes? E os 902 mil de Cotrim de Figueiredo? A direita liberal e moderada enfrenta o dilema ético mais profundo da sua existência. Apoiar um socialista para travar a extrema-direita significa anular a sua própria razão de ser ideológica. Ficar em casa, ou votar em branco, pode abrir as portas de Belém a Ventura. Não há uma resposta fácil, e essa angústia será o motor dos próximos vinte dias.
A esquerda, por seu lado, já não tem escolha. O apoio a Seguro é uma questão de sobrevivência política. O colapso eleitoral do Bloco e do PCP nas presidenciais torna-os reféns do Partido Socialista. A sua influência no próximo quinquénio presidencial será nula, mas terão de mobilizar o seu eleitorado residual para uma causa que não é a sua: a simples contenção do adversário. É uma posição de fraqueza extrema, que pode acelerar ainda mais a sua irrelevância.
"A abstenção de 47,65% é um voto de desconfiança no próprio processo. Ignorar estes cinco milhões de portugueses é o maior risco para a legitimidade do próximo Presidente, seja quem for. O vencedor de 8 de fevereiro governará para metade de um país que o rejeitou ativamente." — Miguel Sousa, sociólogo, em comentário à RTP.
A observação do sociólogo é a mais pertinente de todas. O próximo Presidente, seja Seguro ou Ventura, assumirá funções com um défice de legitimidade popular sem precedentes. Menos de um terço do eleitorado inscrito terá votado nele. Como exercerá o poder de veto? Como tomará a decisão solene de dissolver o Parlamento? A sombra da ilegitimidade pairará sobre Belém, tornando cada acto presidencial um campo minado político. O sistema semipresidencial português não está preparado para um chefe de Estado eleito numa clivagem tão profunda e com uma abstenção tão elevada. A próxima crise política, quando surgir, será agravada por esta fragilidade de origem. O segundo turno não resolverá a divisão. Apenas a administrará, de forma mais tensa e perigosa.
O resultado de 8 de fevereiro de 2026, seja qual for, marcará o início de um dos mandatos presidenciais mais frágeis da história democrática portuguesa. O vencedor não herdará apenas as chaves do Palácio de Belém. Herdará um país cindido ao meio, uma abstenção massiva que questiona a validade do próprio processo, e um parlamento onde o partido do Presidente – seja PS ou Chega – não detém a maioria. Esta é a nova e desconfortável realidade do sistema semipresidencial português: um Presidente com poderes constitucionais significativos, mas com uma base de legitimidade popular estreita e contestada. O cargo, desenhado para ser um símbolo de unidade, transformou-se no epicentro da divisão.
A implicação mais profunda vai muito além das fronteiras nacionais. Portugal era, até há pouco, a exceção ibérica e europeia. Enquanto a Espanha via a ascensão do Vox e a Itália era governada por uma coalizão de direita radical, Portugal mantinha um cordão sanitário aparentemente intocável contra a extrema-direita. A 18 de janeiro, esse cordão sanitário ruiu. A normalização do Chega, agora a um passo da Presidência, envia uma mensagem clara para Bruxelas e para as capitais europeias: não há fortalezas impenetráveis. O populismo de direita pode enraizar-se em qualquer solo, mesmo naqueles que pareciam mais resilientes.
"A eleição portuguesa de 2026 é o ponto final na narrativa da excecionalidade do Sul. Mostra que os fatores que alimentam a extrema-direita – desconfiança nas instituições, desigualdades regionais, medo do declínio – são estruturantes e transversais ao continente. A União Europeia não pode mais ver isto como um fenómeno isolado do Norte ou do Leste. É sistémico." — Carolina Mendes, analista do European Council on Foreign Relations.
O impacto imediato será na governação. O primeiro-ministro, seja do PSD ou de uma frágil coligação, terá de negociar não apenas com um parlamento fragmentado, mas com um Presidente cuja agenda pode ser diametralmente oposta. O poder de veto presidencial, até agora exercido com parcimónia e focado em aspetos técnicos, pode transformar-se num instrumento de bloqueio político permanente. E depois está a espada de Dâmocles da dissolução da Assembleia da República. Um Presidente Ventura, perante um governo de centro-direita que lhe seja hostil, sentir-se-ia tentado a usar esse poder para forçar novas eleições e tentar uma maioria parlamentar para o Chega. Um Presidente Seguro, perante um governo de direita, enfrentaria pressões brutais da sua esquerda para fazer o mesmo. A instabilidade torna-se a nova normalidade.
A crítica mais contundente a este novo panorama é a sua incapacidade geradora de consenso. A polarização, elevada a método político, esvazia a capacidade de o Estado encontrar soluções de médio prazo para problemas crónicos. Seja na saúde, na educação ou nas reformas da administração pública, qualquer medida será imediatamente enquadrada como uma vitória de um bloco sobre o outro, e não como um avanço para o país. O próximo Presidente, independentemente do nome, será uma figura reativa, constantemente a gerir crises, em vez de poder traçar uma visão estratégica.
Há também uma fragilidade democrática subtil. A elevada abstenção, combinada com o sistema de dois turnos, cria uma distorção perversa. O Presidente poderá ser eleito com o apoio de menos de 30% do eleitorado inscrito. Isto confere um poder desproporcionado aos núcleos duros mais radicalizados de cada campo, que são os que votam com maior disciplina no segundo turno. A política tenderá a radicalizar-se ainda mais para alimentar estas bases, alienando ainda mais o eleitorado do centro. O sistema, em vez de moderar, amplifica os extremos.
O próprio papel de "guardião da Constituição" e de "garante da unidade nacional" fica comprometido. Como pode um Presidente eleito numa campanha de confronto violento com as instituições – no caso de Ventura – ou visto como o representante de uma "casta" corrupta por quase um quarto do país – no caso de Seguro – desempenhar essa função conciliadora? A credibilidade da Presidência como árbitro imparcial desaparece. Cada discurso, cada gesto, será lido através da lupa da guerra política permanente.
E há o risco económico, muitas vezes subestimado. A incerteza política é veneno para o investimento. Um cenário de conflito latente entre a Presidência, o Governo e o Parlamento paralisará decisões fundamentais em áreas como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), as concessões públicas, ou as grandes obras de infraestrutura. A imagem internacional de Portugal como porto seguro de estabilidade política no Sul da Europa desvanece-se. As agências de rating observarão, com atenção redobrada, a capacidade do país para governar a si próprio.
A campanha para o segundo turno, nestas três semanas de janeiro e fevereiro, será a mais venenosa da história recente. Não se debaterão políticas. Debater-se-ão identidades, lealdades e medos. A direita moderada, personificada no PSD e na IL, enfrenta o seu momento de verdade. A sua decisão – apoiar Seguro, apoiar Ventura, ou abster-se – definirá o seu futuro existencial. Se optarem por uma aliança tácita com o Chega para derrotar a esquerda, legitimam-no definitivamente como interlocutor do campo conservador. Se se unirem aos socialistas para o bloquear, arriscam-se a ser devorados, no longo prazo, por um eleitorado que vê nessa aliança uma traição.
A esquerda, por seu lado, já perdeu. O seu apoio a Seguro é uma rendição incondicional. O PS, com o seu candidato na Presidência, mesmo que a ganhar, ficará com as mãos atadas. Qualquer movimento para a esquerda afastará os liberais que o apoiaram no segundo turno. Qualquer movimento para o centro alienará a sua base tradicional. Ficará preso numa camisa-de-forças, impotente para fazer reformas profundas.
O dia 8 de fevereiro não trará clareza. Trará apenas um vencedor cansado e uma nação exausta. O novo Presidente tomará posse a 9 de março de 2026, perante uma Assembleia da República onde nenhum partido tem maioria absoluta. A sua primeira decisão poderá ser, em poucos meses, a de dissolver ou não esse mesmo parlamento. O ciclo de eleições intermináveis – legislativas em 2025, presidenciais em 2026, possíveis antecipadas em 2027 – consome toda a energia política, deixando a governação efetiva para segundo plano.
O último ato desta eleição histórica não será a tomada de posse. Será a primeira vez que o novo Presidente, confrontado com a sua primeira lei para promulgar, tiver de decidir entre o seu programa eleitoral e a necessidade de não paralisar o Estado. Nesse momento, na solidão do gabinete presidencial, o peso real de ter sido eleito por menos de um terço de um país dividido far-se-á sentir. A democracia portuguesa, que em 1986 usou um segundo turno para se consolidar, usa o de 2026 para entrar num território completamente desconhecido. A pergunta que fica é simples e perturbadora: quando um sistema político se redefine em torno do conflito, o que sobra para construir?
Em conclusão, a eleição presidencial de 2026, exigindo um segundo turno histórico, é o reflexo direto da profunda fragmentação política confirmada no país. Este momento decisivo não só redefine o futuro de Portugal, mas também ressoa como um sinal dos tempos para a democracia europeia. Resta agora perguntar: que modelo de governação e unidade nacional emergirá deste divisor de águas?
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