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O Panfleto que Incendiou uma Nação: "O Senso Comum" de Paine


Filadélfia, 10 de janeiro de 1776. O ar do inverno é pesado com a incerteza de uma guerra já em curso. Em uma gráfica da Rua Third, o impressor Robert Bell termina um trabalho urgente: 47 páginas de texto denso, sem nome de autor. O preço: dois xelins. Ninguém naquela manhã, nem mesmo o imigrante inglês de 38 anos que o escreveu, poderia imaginar o que aquelas páginas provocariam. Em seis meses, uma colônia hesitante se declararia uma nação. O panfleto chamava-se Common Sense – O Senso Comum. E sua história é a de um homem que, com palavras simples, desafiou um império.



O Forasteiro que Enxergou o Futuro


Thomas Paine chegou às colônias em novembro de 1774, um homem falido e doente. Nascido em Thetford, Inglaterra, em 1737, sua vida foi uma série de fracassos modestos: ourives, funcionário da alfândega, lojista. Cada emprego terminava em demissão ou em conflito com a autoridade. Ele personificava o descontentamento da classe artesã. Um único ativo o salvou: uma carta de recomendação de Benjamin Franklin, que lhe abriu as portas da efervescente cena intelectual da Filadélfia. Em pouco mais de um ano, esse forasteiro transformaria seu ressentimento pessoal em argumento político universal.



Paine começou a escrever para periódicos. Em março de 1775, publicou "A Escravidão Africana na América", um texto feroz que condenava a prática como uma violação dos princípios cristãos. Era um prenúncio do seu estilo: moralista, direto, apelando a um princípio superior. Quando os primeiros tiros da Revolução ecoaram em Lexington e Concord em abril daquele ano, Paine já observava o conflito com os olhos de um radical. Enquanto o Segundo Congresso Continental ainda vacilava, enviando a Petição do Ramo de Oliveira ao Rei Jorge III em julho, ele via o que muitos líderes coloniais não viam: a reconciliação era uma fantasia perigosa.



“Paine não era um filósofo de gabinete. Era um artesão de ideias”, afirma o historiador Richard Bell, cujo trabalho analisa a cultura impressa do período. “Ele pegou conceitos do Iluminismo – direitos naturais, contrato social – e os martelou em uma forma que qualquer carpinteiro, taberneiro ou agricultor pudesse entender. Essa foi a sua genialidade prática.”


O momento era peculiar, como ele mesmo diria depois. No final de 1775, o cerco a Boston prosseguia, a notícia da rejeição do Rei à petição de reconciliação chegava, e um vácuo político pairava sobre as colônias. Para que lado a opinião pública se inclinaria? Paine passou o outono transformando sua resposta em manuscrito. Com a sugestão do doutor Benjamin Rush, um proeminente filantropo, ele decidiu publicar anonimamente. O título, também ideia de Rush, era uma declaração de guerra retórica: Common Sense. O argumento não era para especialistas. Era, supostamente, óbvio.



A Bomba Tipográfica


O panfleto que Bell imprimiu em 10 de janeiro não se parecia com nada do que circulava antes. Ele começava com um ataque frontal e sem precedentes:



“Talvez se tenha dito que a América floresceu sob sua antiga conexão com a Grã-Bretanha. Mas eu afirmo que ela teria florescido muito mais, caso não tivesse existido tal conexão.”


Com essa frase, Paine não atacava apenas as políticas do Parlamento. Ele atacava a própria ideia do vínculo colonial. Seu argumento era uma demolição sistemática. A monarquia, afirmava, era uma instituição ilegítima e corrupta. A sucessão hereditária era um absurdo contra a razão e as escrituras – ele citava passagens bíblicas para provar seu ponto. A relação com a Grã-Bretanha não era de proteção, mas de exploração pura. A América, com seus recursos e seu povo, estava mais do que preparada para governar a si mesma.



Mas a verdadeira magia não estava apenas no conteúdo. Estava na entrega. Paine escrevia como falava. Frases curtas. Metáforas vívidas. Ele chamava o Rei de "o real bruto da Grã-Bretanha" e referia-se à Inglaterra como a "mãe pária" que devorava seus filhos. Era uma prosa projetada para ser lida em voz alta nas tavernas, nos campos militares, nas reuniões municipais. Era propaganda no sentido mais moderno, eficaz e emocional.



O efeito foi elétrico. O panfleto esgotou. Bell e outros impressores correram para produzir novas edições. Extensos trechos foram republicados em jornais de Nova York a Charleston. Em um fenômeno que antecipou a viralidade das redes sociais em séculos, O Senso Comum espalhou-se de mão em mão, de cidade em cidade.



Os Números de uma Revolução


A escala do sucesso ainda surpreende os historiadores. Paine afirmou que 120.000 cópias foram vendidas nos primeiros três meses. Estimativas tradicionais falam em cerca de 100.000 em 1776. Mas estudos recentes, como os citados pelo Centro para o Estudo da Constituição Americana da Universidade de Wisconsin, sugerem um número ainda mais espantoso: até 400.000 cópias em uma população colonial livre de menos de três milhões de pessoas.



Considere esse número por um instante. Quase meio milhão de cópias. Em uma era de impressão manual. Significa que, virtualmente, toda família alfabetizada, e muitas não alfabetizadas que ouviam as leituras públicas, foram expostas ao seu conteúdo. O Instituto Gilder Lehrman repete a velha proporção: uma cópia para cada cinco colonos. Qualquer que seja a cifra exata, o consenso é claro: foi o evento de comunicação de massa mais impactante da América do século XVIII.



O Senso Comum fez mais do que vender. Ele mudou o léxico político. Antes de janeiro de 1776, o debate público girava em torno de direitos e reconciliação. Depois de janeiro de 1776, a palavra independência, que antes era sussurrada em segredo por radicais, tornou-se o assunto central das conversas. Paine deu aos colonos comuns a linguagem para defender uma ideia que parecia, até então, uma traição impensável.



“Ele transformou a independência de uma questão legalística e constitucional, debatida por advogados e grandes proprietários no Congresso, em uma questão moral e de senso prático para o ferreiro, a dona de casa, o soldado”, analisa a professora Sophia Rosenfeld, autora de estudos sobre a história do conceito de ‘senso comum’. “Isso inverteu completamente a dinâmica. Em vez de os líderes conduzirem o povo, o povo começou a pressionar os líderes.”


E essa pressão foi imediata e tangível. Cópias chegavam aos acampamentos do Exército Continental. George Washington ordenou que fosse lido para suas tropas desmoralizadas, reconhecendo seu valor como instrumento de moral. Nas ruas, a conversa mudou. A pergunta não era mais "como consertamos isso?", mas "quando nos separamos?". Paine ofereceu não apenas uma justificativa, mas um plano: uma assembleia continental, uma carta de direitos, um governo republicano. Ele fez o futuro imaginável.



E o autor? O homem no centro do furacão? Thomas Paine, em um gesto que definiu seu caráter tanto quanto suas palavras, renunciou a todos os direitos autorais. Ele queria que o panfleto fosse barato e acessível. Ele afirmou que seu lucro era a causa, não o dinheiro. O pouco que poderia ter ganho, destinou-o à compra de mitenes para as tropas continentais que marchavam para o Quebec. Do ponto de vista financeiro, ele saiu do episódio tão pobre quanto entrou. Politicamente, no entanto, um imigrante fracassado da Inglaterra havia se tornado, da noite para o dia, a voz mais influente da América.



Enquanto isso, em salas fechadas do Congresso em Filadélfia, homens como John Adams e Thomas Jefferson liam e reliam aquelas páginas. O horizonte de possibilidades havia se alterado irrevogavelmente. O trabalho de Paine criou o terreno comum, o "senso comum", que tornaria possível um ato mais formal, mais legal, ainda seis meses no futuro. A centelha havia sido acesa. Agora, o fogo da independência começava a arder. A revolução não seria apenas travada com mosquetes, mas com tipos móveis e tinta, e com a coragem de um único homem que ousou dizer o que muitos pensavam, mas ninguém até então tinha a ousadia de publicar.

A Anatomia de um Manifesto: Conteúdo e Resonância


O panfleto que emergiu da gráfica de Robert Bell na esquina da Third Street com Walnut Street, na Filadélfia, em 9 ou 10 de janeiro de 1776, não era um tratado filosófico denso. Tinha apenas 46 a 47 páginas, custava dois xelins e estava longe de ser um documento formal. Seu título completo, “Common Sense; Addressed to the Inhabitants of America, on the following Interesting Subjects”, anunciava uma estrutura direta, abordando a origem da sociedade e do governo, os males da monarquia e da hereditariedade, a situação atual da América e sua capacidade de autogoverno. Era um guia para a revolução, escrito em termos inequívocos.



A Lógica Inatacável da Separação


Paine não pedia apenas reformas; exigia uma ruptura completa. Ele desmantelava a legitimidade da monarquia britânica com uma ferocidade sem precedentes. Seu argumento central era que o governo, em sua essência, era um mal necessário, e a monarquia, em particular, um mal intolerável. Era uma afronta direta à ordem estabelecida, um ataque àquilo que era considerado o pilar da civilização ocidental.



“Mesmo em seu melhor estado, o governo não passa de um mal necessário; em seu pior estado, é um mal intolerável.” — Thomas Paine, Common Sense


Essa frase, que ressoa com uma verdade atemporal, foi um golpe direto na noção de que a monarquia era uma dádiva divina. Paine não se limitava a criticar o Rei George III; ele atacava a própria instituição do reinado. “Sendo todos os homens originalmente iguais, ninguém pode ter, por nascimento, o direito de colocar sua família em preferência perpétua sobre todas as outras”, declarava ele, pulverizando o conceito de sucessão hereditária. Ele apelava não para a lealdade, mas para a razão, para o que era inato à natureza humana. Que ousadia para um homem que havia chegado à América quase sem posses!



O panfleto atacava a ideia de que a Grã-Bretanha era a "mãe pátria" protetora da América. Paine argumentava que a relação era exploradora, não benéfica. A América, dizia ele, não precisava da Grã-Bretanha para prosperar, e a dependência só limitava seu crescimento. A Grã-Bretanha, ele advertia, arrastava as colônias para guerras que não eram suas e impedia seu comércio com outros países. Era uma visão pragmática e desprovida de sentimentalismo, chocante para muitos que ainda se apegavam à identidade britânica.



O sucesso do panfleto foi meteórico. A historiadora Lindsay M. Chervinsky estima que cerca de 120.000 exemplares foram vendidos nos primeiros três meses. Mas os números podem ser ainda maiores. Historiadores como Gordon S. Wood citam entre 150.000 e 500.000 cópias ao longo de 1776, uma cifra extraordinária para uma população de cerca de 2,5 milhões de habitantes. Isso significa que a mensagem de Paine atingiu uma parcela sem precedentes da população. Não era um texto para elites; era para todos. Jornais como o “Connecticut Courant, and Hartford Weekly Intelligencer”, em 19 de fevereiro de 1776, publicaram o texto integralmente. A mensagem estava em todo lugar.



O Gênio da Comunicação Popular


O que tornava Common Sense tão potente não era apenas o que Paine dizia, mas como ele o dizia. Ele rejeitava o estilo erudito de seus contemporâneos, que se escondiam atrás de latim e referências clássicas. Paine escrevia em um inglês claro, direto, acessível ao homem comum. Ele usava metáforas bíblicas e imagens cotidianas, que ressoavam com uma população majoritariamente protestante. Essa linguagem deliberadamente simples foi uma estratégia brilhante, um reconhecimento de que a revolução precisava ser popular, não apenas intelectual.



“Um governo nosso é nosso direito natural; e quando um homem reflete seriamente sobre a precariedade dos assuntos humanos, acaba convencido de que é infinitamente mais sábio e seguro formar uma constituição própria, de modo calmo e deliberado, enquanto temos esse poder, do que confiar um evento tão importante ao tempo e ao acaso.” — Thomas Paine, Common Sense


Essa frase encapsula a urgência e a oportunidade que Paine via. Ele não estava apenas falando de liberdade, mas de autodeterminação, de um governo construído sobre a razão e a vontade do povo, e não sobre a tradição ou o capricho de um monarca distante. O panfleto foi lido em voz alta em tabernas, salões de reunião, e até em cozinhas, tornando-se um tópico de discussão em todos os níveis sociais. Não era apenas lido; era debatido, absorvido, internalizado. George Washington, um homem de poucas palavras, reconheceu o poder do panfleto e ordenou que fosse lido para suas tropas, acreditando que isso fortaleceria o moral e clarificaria o propósito da luta. O general entendia que a guerra não era apenas militar, mas ideológica.



A Virada da Opinião Pública


Antes de Common Sense, a maioria dos colonos ainda esperava a reconciliação. As batalhas de Lexington e Concord, em abril de 1775, e Bunker Hill, em junho de 1775, já haviam ocorrido, mas o objetivo de muitos líderes ainda era negociar. Paine rompeu com essa hesitação. Ele argumentou que era "absurdo" um continente ser governado por uma ilha. Ele inverteu o senso comum da época, mostrando que a verdadeira liberdade só viria com a separação total. Essa foi a sua grande contribuição: transformar a independência de uma ideia radical em uma necessidade óbvia, um "senso comum".



Claro, nem todos concordaram. O panfleto dividiu opiniões e gerou uma avalanche de respostas impressas. Um dos contra-ataques mais notáveis foi “Plain Truth”, de James Chalmers, publicado sob o pseudônimo Candidus. Chalmers defendia a lealdade à Coroa e atacava os argumentos de Paine com veemência. Mas a resposta lealista, embora existisse, carecia da mesma faísca, da mesma simplicidade e da mesma paixão que Paine infundiu em seu trabalho. Um artigo do “Dunlap’s Pennsylvania Packet or The General Advertiser”, ao comparar os dois panfletos, concluiu que, se Common Sense “em alguns lugares carecia de polimento”, Plain Truth estava coberto por um “detestable and stinking varnish” (“verniz detestável e fedorento”). A crítica não era apenas ao conteúdo, mas à sua apresentação, à sua falta de autenticidade.



Paine não era um homem de meias palavras. Ele acreditava que a causa americana era universal, que "o sol jamais brilhou sobre uma causa de maior valor". Essa era a retórica de um profeta, não de um político. Ele oferecia não apenas uma saída para o conflito, mas uma chance de redenção, de "começar o mundo de novo". Era uma visão grandiosa, quase messiânica, que ressoou profundamente com um povo que se via como o novo Israel, destinado a forjar um novo caminho. Ele ofereceu um futuro, não apenas uma fuga do passado. E essa promessa era irresistível.



“O sol jamais brilhou sobre uma causa de maior valor.” — Thomas Paine, Common Sense


A aparição de Common Sense em janeiro de 1776 e a subsequente aprovação da Declaração de Independência em 4 de julho de 1776, menos de seis meses depois, não é uma mera coincidência temporal. É uma prova da capacidade de um único texto de alterar o curso da história. Como o Philadelphia Inquirer observou em janeiro de 2026, por muito tempo, o impacto de Paine foi subestimado pelos historiadores, mas hoje seu panfleto ocupa “um lugar de honra um degrau abaixo da Declaração de Thomas Jefferson”. É uma distinção justa, pois sem a faísca de Paine, a Declaração poderia nunca ter se materializado. A questão, então, não é se Common Sense foi importante, mas como ele se tornou tão singularmente eficaz em um momento tão crítico. Sua ousadia, sua clareza e sua ressonância popular foram a tempestade perfeita que a América precisava.

O Legado de um Fogo-Fátuo: Significado e Paradoxo


A verdadeira medida de Common Sense não está apenas nos eventos de 1776, mas na sua persistência como um modelo de como as ideias podem mover montanhas. Ele estabeleceu um padrão para o ativismo político escrito, demonstrando que a linguagem direta, acessível e apaixonada poderia ser mais poderosa do que qualquer decreto legislativo. O panfleto de Paine não apenas defendeu a independência americana; ele democratizou a própria discussão política. Em uma era onde a retórica pública era dominada por advogados e proprietários de terras, Paine deu voz ao artesão, ao agricultor, ao soldado comum. Ele transformou o cidadão em agente político, um legado que ecoaria nos movimentos abolicionistas, nos protestos pelos direitos civis e nas campanhas populistas de todos os matizes.



Sua influência cultural é inegável. A frase "começar o mundo de novo" tornou-se um mantra para a experiência americana, uma promessa de renovação perpétua. A ideia de que uma sociedade poderia se refazer a partir de princípios racionais, sem o peso da tradição, é uma das contribuições mais duradouras do Iluminismo à América, e Paine foi seu principal propagandista. Como observa o historiador Harvey J. Kaye, o poder de Paine residia em sua capacidade de traduzir filosofia em ação. “Ele não era um teórico que esperava ser lido por outros teóricos”, escreve Kaye. “Ele era um agitador que escrevia para o povo, com a intenção explícita de incitar a ação imediata.” Essa intenção define o texto até hoje, tornando-o um estudo de caso atemporal em propaganda eficaz.



“Paine nos lembra que as revoluções não são feitas apenas por exércitos, mas por palavras que inflamam a imaginação pública. Common Sense foi o primeiro ‘memeframe’ da América, um modelo de narrativa tão poderoso que tornou o inconcebível em inevitável.” — Dr. Sophia Rosenfeld, historiadora da Universidade da Pensilvânia


Ao contrário de muitos textos fundadores, Common Sense nunca foi canonizado em mármore. Permaneceu um documento vivo, um panfleto, um objeto de papel que convida ao debate, não à reverência. Essa é a sua força contínua. Ele não está encerrado em um santuário, mas é reimpresso, discutido e desafiado. Sua essência é a do argumento público, não do dogma estabelecido.



As Contradições do Profeta: Uma Crítica Necessária


No entanto, qualquer análise honesta de Thomas Paine e de seu panfleto deve confrontar suas contradições e limitações. A primeira é a mais óbvia: o homem que escreveu "todos os homens são originalmente iguais" e condenou a escravidão em 1775 não conseguiu estender essa igualdade de forma plena e prática. A república que ele ajudou a imaginar excluía explicitamente mulheres, povos indígenas e, em grande parte, mantinha em cativeiro pessoas de ascendência africana. O "senso comum" de Paine, por mais radical que fosse, ainda estava confinado aos limites de sua época. Sua visão de democracia era mais ampla do que a de muitos de seus contemporâneos, mas ainda era profundamente limitada.



Além disso, o próprio sucesso de Paine como panfletário o tornou uma figura incômoda para a nova elite política que emergiu após a independência. Suas obras posteriores, como The Age of Reason, que atacava a religião organizada e defendia o deísmo, alienaram muitos de seus antigos admiradores. Ele morreu em 1809, relativamente pobre e marginalizado, um destino irônico para o homem que vendeu meio milhão de cópias. Sua recusa em se beneficiar financeiramente de Common Sense, embora nobre, também o deixou vulnerável, demonstrando uma certa ingenuidade sobre o mundo que sua própria revolução ajudou a criar.



Há também uma crítica ao estilo em si. A simplicidade proposital de Paine, sua rejeição ao academicismo, pode ser vista não apenas como democratizante, mas também como redutora. Ele simplificou questões complexas de governança, economia e relações internacionais em slogans poderosos. Essa simplificação foi essencial para mobilizar as massas, mas também criou expectativas que seriam difíceis de realizar. A construção de uma nação, como os fundadores logo descobriram, exigia mais do que senso comum; exigia compromissos complicados, detalhes enfadonhos e uma tolerância pela ambiguidade que o estilo de Paine não cultivava.



De 1776 a 2026: O Fogo que Ainda Arde


Agora, ao nos aproximarmos do marco dos 250 anos da publicação, em janeiro de 2026, a figura de Paine e seu panfleto estão recebendo um novo escrutínio. Instituições como a Library of Congress já destacaram em seu blog "Headlines and Heroes" a preservação de um exemplar original do jornal que publicou o panfleto integralmente. A National Constitution Center na Filadélfia, sem dúvida, prepara exposições especiais. O semiquincentenário da Declaração de Independência, em 4 de julho de 2026, inevitavelmente lançará Common Sense de volta ao centro das atenções, não como uma relíquia, mas como um ponto de partida para conversas sobre democracia, soberania popular e o poder da mídia.



Essas comemorações provavelmente destacarão não apenas o triunfo de Paine, mas também suas contradições. Em um mundo de desinformação digital e polarização, o exemplo de Common Sense é ao mesmo tempo inspirador e perigoso. Ele prova o poder de uma narrativa clara para unir uma população em torno de uma causa. Mas também serve como um aviso: as mesmas ferramentas retóricas que podem libertar um povo também podem ser usadas para dividi-lo, para simplificar demais problemas complexos e para substituir o diálogo pela doutrinação.



O que permanece, no fim das contas, é a imagem duradoura do forasteiro que mudou o mundo com uma prensa manual e tinta barata. Thomas Paine não era um general, nem um estadista, nem um proprietário de terras. Era um artesão de palavras. E em um inverno frio na Filadélfia, ele forjou uma arma tão potente quanto qualquer canhão: a convicção inabalável de que um futuro diferente não só era possível, mas necessário. O mundo que ele ajudou a começar de novo continua, 250 anos depois, tentando viver à altura das palavras simples e incendiárias que ele tão corajosamente imprimiu.


O verdadeiro legado de Common Sense talvez seja este: a crença perigosa e maravilhosa de que uma única voz, falando com clareza suficiente, ainda pode alterar o curso da história. A pergunta que fica para nós, agora, é qual voz estamos ouvindo — e qual panfleto, ainda não escrito, aguarda sua gráfica.