Segurança e Regulamentação da IA: O Que Vem Depois para a Tecnologia Responsável?
Em 1º de janeiro de 2026, um silêncio peculiar tomou conta das salas de reunião no Vale do Silício. Não era um feriado. Era o dia em que a Lei de Segurança de IA da Califórnia entrou em vigor. Do outro lado do país, em Nova York, desenvolvedores de sistemas avançados recalibravam seus modelos, diante da ameaça de multas de US$ 30 milhões. Enquanto isso, em Washington D.C., um gabinete na Casa Branca assinava uma ordem executiva para tentar desfazer tudo isso. Este é o novo campo de batalha da governança de inteligência artificial: um emaranhado de leis estaduais, pressões federais e uma corrida contra o tempo para estabelecer regras antes que os riscos se materializem.
O Faroleste Regulatório: Estados na Vanguarda
A ausência de uma lei federal abrangente nos Estados Unidos criou um vácuo. Os estados, impacientes, começaram a preenchê-lo. De forma rápida e, por vezes, caótica. O ano de 2025 não foi sobre a promessa distante da superinteligência; foi sobre chatbots que oferecem conselhos terapêuticos perigosos, sistemas de contratação que perpetuam vieses e deepfakes que ameaçam eleições locais. Os riscos hipotéticos tornaram-se operacionais. E a resposta veio de Sacramento, Albany e Springfield, não de Capitol Hill.
O modelo californiano é revelador. A Lei de Segurança de IA do estado tem dois pilares principais. O primeiro é a proteção a denunciantes. Funcionários que relatarem riscos relacionados à IA a autoridades estaduais agora têm proteção legal contra retaliação. O segundo é o CalCompute, um consórcio de nuvem pública de IA destinado a fornecer recursos computacionais para pesquisas de segurança e testes independentes. É uma tentativa de democratizar o acesso à infraestrutura de ponta, tradicionalmente monopolizada por gigantes tecnológicos.
"A Califórnia está enviando uma mensagem clara: a segurança da IA é um bem público, não um problema interno das empresas. A proteção aos denunciantes é um mecanismo crítico para desbloquear informações que de outra forma ficariam presas atrás do sigilo corporativo", analisa uma pesquisadora de políticas de IA da Universidade de Stanford, que pediu para não ser identificada devido a colaborações em andamento com a indústria.
Nova York seguiu um caminho diferente, mas igualmente agressivo. Sua Lei RAISE (Responsible AI Safety and Education) mira especificamente os desenvolvedores com altos custos de treinamento de modelos – uma clara referência aos sistemas de fronteira, como os grandes modelos de linguagem. A lei exige que essas empresas implementem políticas de segurança robustas e estruturas de mitigação de risco. A fiscalização é dura. Uma primeira violação pode custar US$ 10 milhões. A segunda, US$ 30 milhões. O cálculo político é simples: multas que doem no balanço patrimonial são a única linguagem que algumas corporações entendem.
O Paradoxo da Preempção Federal
Em 11 de dezembro de 2025, a administração federal contra-atacou. Uma ordem executiva intitulada "Assegurando uma Estrutura de Política Nacional para a Inteligência Artificial" foi assinada. Seu núcleo era um mecanismo de preempção. A ordem estabeleceu uma Força-Tarefa de Litígio de IA com um mandato explícito: contestar judicialmente leis estaduais consideradas inconsistentes com a política federal de IA. O argumento oficial é que esse mosaico regulatório sufoca a inovação e cria uma complexidade insustentável para a conformidade.
Mas a ordem foi além. Ela instruiu agências federais a eliminarem obstáculos regulatórios e, de forma mais contundente, a restringirem o financiamento federal para estados com leis de IA consideradas "onerosas". É uma manobra de poder bruto, usando a carteira federal para coagir a conformidade estadual. O subtexto é uma guerra ideológica sobre a governança da tecnologia. De um lado, estados que veem a regulamentação como uma necessidade urgente de proteção ao cidadão. Do outro, uma visão federal que prioriza a liderança tecnológica global e a velocidade de implantação.
"Esta força-tarefa de litígio é um experimento perigoso. Ela tenta substituir a deliberação democrática estadual por um decreto executivo centralizado. O resultado provável não é a harmonia, mas anos de incerteza jurídica, com cada nova lei estadual sendo imediatamente desafiada nos tribunais", argumenta um professor de Direito Constitucional da Universidade de Columbia, com experiência em disputas estado-federais.
O cenário atual é um paradoxo regulatório. Enquanto a Comissão Federal de Comércio (FTC) tem 90 dias, a partir da ordem, para emitir uma declaração de política sobre como a lei federal de práticas enganosas se aplica aos modelos de IA, os estados já estão aplicando suas próprias regras no mundo real. A FCC tem o mesmo prazo para estabelecer um padrão federal de relatórios e divulgação. Esses prazos curtos revelam a pressa, mas não necessariamente a eficácia. A burocracia federal se move em uma velocidade glacial comparada ao ciclo legislativo estadual.
A Regulamentação Entra no Consultório
Talvez nenhuma área ilustre melhor a tendência de regulamentação setorial do que a saúde mental. Em 4 de agosto de 2025, a Lei de Recursos Psicológicos de Bem-Estar e Supervisão de Illinois entrou em vigor. Seu alvo: os chamados AI companions e chatbots terapêuticos. A lei é incisiva. Sistemas de IA não licenciados estão expressamente proibidos de fornecer psicoterapia. Ponto final.
Para profissionais licenciados, o uso é permitido apenas para funções de suporte limitadas, e sob uma série de condições rígidas. É necessário consentimento por escrito do paciente. A IA não pode tomar decisões terapêuticas, interagir diretamente com os clientes ou gerar planos de tratamento sem revisão humana. A mensagem é cristalina. A relação terapêutica é sagrada e inerentemente humana. A tecnologia pode ser uma ferramenta, nunca um substituto.
Esta não é uma postura isolada. Reflete um temor crescente documentado em estudos da área de saúde digital: a de que interações empáticas simuladas por máquinas possam levar a conselhos inadequados, a dependência emocional de um algoritmo ou a falhas catastróficas na detecção de crises como tendências suicidas. Illinois decidiu que a aposta é alta demais para ser deixada para as diretrizes éticas voluntárias das empresas de tecnologia.
A regulamentação da IA não é mais uma conversa abstrata sobre o futuro distante. É uma realidade prática e fragmentada, moldando como as empresas desenvolvem tecnologia, como os estados protegem seus cidadãos e como o governo federal tenta reafirmar seu controle. O que vem a seguir será determinado não apenas em laboratórios de IA, mas em assembleias legislativas estaduais, nos tribunais federais e na opinião pública, que cada vez mais exige transparência e responsabilidade de sistemas que já tocam todas as facetas da vida moderna.
O Laboratório da Califórnia: Regulando a Interface Humana
Enquanto o debate federal sobre preempção permanece teórico, os reguladores da Califórnia estão ocupados escrevendo o manual de instruções para a convivência com a inteligência artificial. O dia 1º de janeiro de 2026 não marcou apenas a entrada em vigor de uma lei, mas de um pacote legislativo que aborda a IA desde os seus pesos de modelo até a sua expressão mais íntima: a conversa. A Lei de Segurança de IA (SB 53), a Lei de Transparência de Dados de Treinamento de IA Generativa (AB 2013) e a Lei de Segurança de Chatbots Companheiros (SB 243) começaram a valer simultaneamente. Esta tríade representa a abordagem californiana em sua essência: multiterritorial, intrusiva e focada em resultados tangíveis.
O SB 53 é o braço de segurança cibernética. Ele exige que desenvolvedores de modelos de fronteira – aqueles que exigem poder computacional massivo – submetam seus sistemas a avaliações de risco de terceiros, implementem medidas de segurança robustas para proteger os pesos não divulgados dos modelos e estabeleçam estruturas internas de governança. Mas seu mecanismo mais provocativo são os canais confidenciais para denúncias de funcionários. A mensagem é clara: o sigilo corporativo não pode se sobrepor à segurança pública. O procurador-geral do estado ganhou um novo poder: aplicar penalidades civis de até US$ 1 milhão por violação. E o relato de incidentes de segurança crítica agora tem prazo: quinze dias para reportar ao Escritório de Serviços de Emergência, ou vinte e quatro horas se houver uma ameaça pública iminente.
"A Califórnia está essencialmente dizendo às empresas de tecnologia: 'Vocês não podem mais tratar a segurança de modelos avançados como um segredo comercial'. A avaliação de terceiros e a proteção aos denunciantes rompem o muro de silêncio que permitiu que vulnerabilidades fossem ignoradas." — Analista de Políticas de Cibersegurança, Centro de Segurança e Tecnologia Emergente
SB 243: Quando a Regulamentação Encontra a Psicologia
Se o SB 53 lida com a infraestrutura, o SB 243 lida com a psique. Esta lei é um experimento social audacioso. Ela foi descrita como "a primeira lei do país a abordar a 'interface humana' de chatbots de IA, especialmente aqueles usados por menores, estabelecendo requisitos rigorosos em torno de transparência, segurança e integridade comportamental". O foco em menores não é acidental. É o reconhecimento de que uma geração inteira está formando seus hábitos sociais e emocionais em interação com entidades não humanas que simulam empatia.
Os requisitos são meticulosos e refletem um profundo ceticismo sobre o design atual desses sistemas. Os operadores devem divulgar claramente que o usuário está interagindo com uma IA. A cada três horas, usuários menores de idade recebem uma notificação padrão lembrando-os para fazer uma pausa e reiterando que o chatbot não é humano. É um lembrete comportamental, uma interrupção forçada no fluxo da conversa projetada para evitar a formação de vínculos doentios. Protocolos de segurança contra conteúdo suicida e prejudicial são obrigatórios. E a partir de 1º de julho de 2027, a lei se tornará ainda mais intrusiva, exigindo a manutenção de registros detalhados de interações relacionadas a crises e a adesão a padrões rigorosos de privacidade.
"O SB 243 trata os chatbots companheiros não como brinquedos, mas como ambientes psicológicos. A exigência da notificação a cada três horas é uma intervenção arquitetônica, uma tentativa de remodelar a dinâmica de poder entre o usuário e o algoritmo. É regulamentação como design de experiência do usuário imposto." — Especialista em Ética Digital, Instituto de Tecnologia de Massachusetts
A fiscalização é deixada nas mãos dos cidadãos. Indivíduos que se sentirem prejudicados podem entrar com ações civis privadas buscando indenizações mínimas de US$ 1.000 por violação, além de honorários advocatícios. Esta provisão transforma cada usuário em um potencial fiscal, criando um exército descentralizado de vigilância regulatória. A pergunta que fica no ar é se isso gerará uma enxurrada de litígios frívolos ou se funcionará como um dissuasor eficaz contra práticas de design predatórias.
A Corrida Contra o Relógio Federal
A pressa legislativa da Califórnia tem um motivo palpável: um prazo federal. Uma ordem executiva federal direcionou o Secretário de Comércio a publicar, até 11 de março de 2026, uma avaliação identificando leis estaduais de IA consideradas onerosas e em conflito com a política federal. O mandato é específico: sinalizar leis que exijam que modelos de IA alterem resultados verdadeiros ou que compelam divulgações que possam violar proteções constitucionais. É uma espada de Dâmocles pendurada sobre a ambição regulatória estadual.
Os legisladores californianos, no entanto, parecem determinados a acelerar, não a desacelerar. Mais de 22 projetos de lei foram transferidos para consideração na segunda metade da sessão legislativa 2025-2026, que começou em 4 de janeiro de 2026. O prazo para introdução de nova legislação é 20 de fevereiro. Fontes no Capitol estadual em Sacramento observam que os legisladores "não mostram intenção de desacelerar" apesar dos sinais federais. Esta é uma aposta arriscada. Cada nova lei aprovada pode se tornar um alvo para a força-tarefa de litígio federal.
A Lei de Transparência de IA (SB 942) oferece um estudo de caso fascinante dessa tensão. Originalmente programada para vigorar em 1º de janeiro de 2026, sua implementação foi adiada para 2 de agosto de 2026. Ela exige que grandes plataformas de IA forneçam ferramentas gratuitas de detecção de conteúdo gerado por IA e incluam marcas d'água manifestas e latentes. O atraso foi um reconhecimento tático da complexidade técnica? Ou uma manobra para evitar ser capturada pela avaliação federal de março? A linha do tempo sugere o último.
"Esta não é uma disputa legal comum. É uma batalha pelo narrativa da inovação. A Califórnia está apostando que pode definir os padrões para o país, como fez com as emissões de carros e a privacidade online. A Casa Branca vê isso como uma fragmentação perigosa do mercado nacional. O resultado determinará se a governança da IA será um patchwork estadual ou um padrão federal único." — Professor de Direito e Política Tecnológica, Universidade da Califórnia, Berkeley
O Custo Real da Conformidade e o Fantasma da Fragmentação
Para as empresas, especialmente as startups, este cenário é um pesadelo logístico. A conformidade multijurisdicional já é a linha de base. Uma empresa que desenvolve um chatbot terapêutico precisa navegar pela lei de Illinois que proíbe a prática não licenciada, pela lei da Califórnia que impõe notificações a cada três horas, e pelas potenciais ações federais de preempção. Cada estado está se tornando um laboratório de regulamentação com suas próprias variáveis. Nova York foca em penalidades financeiras massivas. Califórnia foca em transparência e segurança do usuário final. Illinois foca em licenciamento profissional.
Isso cria um fardo assimétrico. As grandes empresas de tecnologia têm exércitos de advogados e equipes de conformidade que podem mapear essas obrigações. Uma startup de cinco pessoas em Austin ou Boulder não tem. O risco é a consolidação: a regulamentação, com a melhor das intenções, pode acabar servindo como uma barreira de entrada que protege os incumbentes. A inovação em IA pode se tornar o domínio exclusivo daqueles que já são grandes o suficiente para arcar com o custo da conformidade fragmentada.
"Estamos construindo a Torre de Babel da regulamentação de IA. Cada estado está falando sua própria língua legal. Para um pequeno desenvolvedor, entender e implementar requisitos que mudam a cada fronteira estadual não é apenas caro; é praticamente impossível. Isso não promove a segurança, promove a estagnação e o domínio do mercado pelos gigantes." — CEO de uma Startup de IA, que pediu anonimato devido a processos regulatórios pendentes
E ainda assim, há uma defesa poderosa para esta abordagem laboratorial. Problemas complexos como o impacto psicológico dos chatbots ou os vieses nos algoritmos de contratação se manifestam de formas locais e específicas. Uma solução única federal pode ser muito rígida para abordar nuances estaduais. A Califórnia, com sua densa população e economia centrada na tecnologia, é o campo de testes ideal. Suas leis podem falhar, podem ser excessivas, mas gerarão dados. Dados sobre o que funciona. Dados que podem, eventualmente, informar uma estrutura federal mais inteligente. Ou podem simplesmente provar que a governança descentralizada, por mais confusa, é mais responsiva.
A verdadeira questão não é se a regulamentação estadual vai continuar, mas como ela evoluirá diante da pressão federal. A ordem executiva de dezembro de 2025 foi um primeiro tiro. A avaliação do Secretário de Comércio em março será o segundo. Os processos judiciais que inevitavelmente se seguirão serão a batalha decisiva. Enquanto isso, em São Francisco, em Los Angeles, em San Diego, empresas estão reescrevendo seus termos de serviço, reprogramando seus chatbots e recalculando seus orçamentos de risco. A teoria da regulamentação colide com a prática do código. E o relógio, para todos os envolvidos, continua correndo.
O Preço da Precaução: Significado e Consequências Não Intencionais
A batalha regulatória entre Sacramento e Washington D.C. transcende a inteligência artificial. Ela reencena um conflito constitucional fundamental sobre federalismo e inovação, com a tecnologia do século XXI como pano de fundo. A agressividade regulatória da Califórnia não é um experimento isolado; é o capítulo mais recente em uma longa história de o estado agir como um de facto regulador nacional, de padrões de emissões de veículos a leis de privacidade online. O que está em jogo agora é o ritmo e a forma como a sociedade integrará a mais transformadora das tecnologias. A aposta da Califórnia é que a precaução e a transparência forçada, por mais desordenadas que sejam, são preferíveis a um vácuo regulatório onde os interesses corporativos ditam as normas sociais.
"A regulamentação estadual da IA não é apenas sobre segurança de algoritmos. É uma reafirmação do poder democrático local em face de uma tecnologia globalizada e opaca. Quando um legislador em Sacramento pode ser processado por um eleitor insatisfeito com um chatbot, enquanto um CEO em São Francisco responde apenas aos acionistas, você tem uma desconexão fundamental de responsabilidade. As leis estaduais tentam costurar essa lacuna." — Historiador da Tecnologia, Universidade de Harvard
O legado deste período será medido em dois eixos. O primeiro é a segurança tangível: menos incidentes de vazamento de dados de modelos, menos casos de manipulação emocional de menores, menos decisões automatizadas catastróficas em hospitais e locais de trabalho. O segundo, mais difícil de quantificar, é o efeito sobre a inovação. A indústria argumentará que cada dólar gasto em conformidade com 50 regimes diferentes é um dólar a menos para pesquisa fundamental. Os reguladores rebaterão que a inovação sem limites é, em última análise, destrutiva. O verdadeiro teste virá quando uma empresa de IA pioneira, mas pequena, falir porque não pôde navegar no labirinto legal, ou quando um grande incidente for evitado porque um denunciante na Califórnia teve proteção para falar.
As Fissuras na Armadura: Críticas e Riscos da Fragmentação
A abordagem californiana, por mais bem-intencionada, não é imune a críticas profundas. A mais óbvia é a da fragmentação. Um desenvolvedor em Utah precisa construir um produto diferente para o mercado da Califórnia, outro para Nova York, e outro para os estados sem regulamentação. Isso não apenas eleva os custos, mas também estratifica a experiência do usuário americano com base no código postal. Um cidadão no Alabama pode ser alvo de práticas de IA que são ilegais no Oregon. Esta não é uma mera inconveniência; é uma violação do princípio de igualdade de acesso e proteção.
Outra crítica séria é o risco de regulamentação performativa. A notificação a cada três horas para menores, exigida pelo SB 243, é um exemplo. Ela parece boa no papel – um lembrete de que o chatbot não é humano. Mas na prática, é facilmente ignorável. Adolescentes, o público-alvo da lei, são especialistas em ignorar pop-ups e avisos. A regulamentação pode criar uma falsa sensação de segurança, onde legisladores podem declarar vitória enquanto os comportamentos de risco continuam inalterados nos interstícios do design da plataforma.
Há também uma questão de competência técnica. Legislaturas estaduais, com seus ciclos de dois anos e equipes limitadas, podem estar legislando sobre sistemas cuja complexidade excede sua compreensão. O risco é criar leis que são muito rígidas em áreas benignas e muito vagas em áreas de alto risco. A exigência de marcas d'água manifestas e latentes, por exemplo, é um alvo móvel tecnológico. Técnicas de detecção e remoção evoluem mais rápido do que os estatutos podem ser emendados.
Finalmente, existe o perigo da fuga de capital e talento. Se o custo regulatório na Califórnia se tornar proibitivo, a próxima geração de startups de IA pode simplesmente nascer em Austin, Miami ou no exterior. O estado pode acabar regulando os incumbentes – as Metas e Googles do mundo, que têm raízes profundas no Vale do Silício – enquanto a próxima onda de inovação acontece em outro lugar. A regulamentação, neste cenário, não moldaria o futuro da tecnologia; apenas observaria sua partida.
O Que Esperar em 2026 e Além
Os próximos meses serão decisivos. A data de 11 de março de 2026 não é apenas outro dia no calendário. É o prazo final para o Secretário de Comércio publicar sua avaliação das leis estaduais "onerosas". Este documento será a justificativa formal para os processos federais de preempção que se seguirão. Advogados constitucionalistas já estão preparando seus argumentos. O caso provavelmente escalará rapidamente para a Suprema Corte, definindo os limites do poder estadual sobre o comércio interestadual de bits e algoritmos.
Enquanto isso, em 2 de agosto de 2026, a Lei de Transparência de IA (SB 942) da Califórnia finalmente entrará em vigor, exigindo ferramentas de detecção de conteúdo gerado por IA. A eficácia desta lei será um teste crucial. Se as ferramentas forem imprecisas, gerando muitos falsos positivos ou falsos negativos, toda a estrutura regulatória baseada em transparência e rotulagem poderá ser questionada.
O cenário mais provável para o final de 2026 não é uma resolução, mas uma escalada. Veremos mais estados aprovando suas próprias leis, inspirados ou cautelosos com o modelo da Califórnia. Veremos a força-tarefa de litígio federal entrar com suas primeiras ações judiciais. E veremos a indústria, cansada da incerteza, intensificando seu lobby por uma lei federal abrangente – uma lei que provavelmente preencheria o vácuo com um padrão mais favorável aos negócios do que qualquer regulamentação estadual.
O laboratório da democracia americana está funcionando a todo vapor, com a IA como seu sujeito de teste mais complexo. Os resultados serão confusos, contraditórios e caros. Mas a alternativa – esperar que uma solução harmoniosa e perfeita emerja de um Congresso paralisado – é uma aposta com odds muito piores. A cacofonia regulatória que se avizinha pode ser o preço necessário para descobrir, através de tentativa e erro em 50 estados, o que realmente funciona. Ou pode ser o prelúdio de um fracasso sistêmico, onde a promessa da IA é sufocada não pela falta de visão, mas pelo excesso de regras. A resposta não virá de um gabinete ou de um campus corporativo, mas do som combinado de teclados de programadores, canetas de legisladores e martelos de juízes, todos batendo em ritmos diferentes, tentando, desesperadamente, escrever o futuro antes que ele se escreva sozinho.
Autonomia Strategica: La Scommessa di Bruxelles su Ricerca e Potere
Il 21 ottobre 2025, la Commissione europea ha presentato il suo programma di lavoro per l'anno a venire con un titolo che non ammetteva sfumature: "Europe's Independence Moment". Non era una dichiarazione, era un manifesto. Sulla scrivania del Commissario per la Ricerca e l'Innovazione, Iliana Zaharieva, un grafico mostrava la cifra: 14 miliardi di euro. Questo è il budget per Horizon Europe 2026-2027, il più grande programma transnazionale di ricerca al mondo. Ma i soldi, per una volta, sono solo una parte della storia. L'altra è una corsa contro il tempo, contro le pressioni esterne e contro i fantasmi dell'insicurezza che si aggirano per i laboratori e le biblioteche del continente.
L'Unione Europea ha deciso di costruire un muro. Non un muro di cemento, ma un baluardo di conoscenza, tecnologia e norme. Lo chiamano "autonomia strategica". L'obiettivo è chiaro: rendere l'Europa capace di decidere il proprio destino tecnologico, scientifico e industriale senza dipendere, o temere, le mosse di attori globali spesso più agili e spregiudicati. La posta in gioco non è solo la competitività. È la sovranità stessa di un'idea di società aperta che ora scopre le proprie vulnerabilità.
Il Paradosso dell'Apertura: Tra Libertà Accademica e Interferenze
Il fondamento dell'impresa scientifica europea è stato, per decenni, la libertà. La libertà di indagare, di collaborare oltre i confini, di pubblicare. Un principio nobile, che oggi vacilla sotto il peso di un rapporto della Commissione del 2025. Il documento dipinge un quadro preoccupante: episodi di autocensura su temi politicamente sensibili, intimidazioni contro ricercatori, pressioni sul finanziamento pubblico e una burocrazia asfissiante che erode l'indipendenza delle istituzioni. La libertà accademica, pilastro della democrazia, si rivela un punto debole in un mondo di competizione geopolitica brutale.
"Con la libertà accademica arriva la responsabilità accademica. Non possiamo più permetterci un'ingenuità sistemica. Dobbiamo sviluppare una cultura della sicurezza della ricerca che protegga i nostri valori senza rinchiuderci in una torre d'avorio", afferma un alto funzionario della DG Ricerca e Innovazione, che parla a condizione di anonimato a causa della sensibilità del tema.
La risposta di Bruxelles è duplice. Da un lato, raddoppia gli investimenti in programmi come le Marie Skłodowska-Curie Actions, con 1,25 miliardi dedicati a carriere di ricerca internazionali. Dall'altro, prepara strumenti di difesa. Il più atteso è l'European Research Area (ERA) Act, una proposta legislativa che arriverà nel 2026 e che attualmente è in consultazione pubblica fino al 23 gennaio. Il suo scopo? Integrare la sicurezza della ricerca nel tessuto normativo europeo, fornendo un quadro comune per proteggere la proprietà intellettuale, i dati sensibili e l'indipendenza dei ricercatori.
Il Centro di Competenza e la Nuova Frontiera del Rischio
A metà del 2026, all'interno della Commissione, aprirà i battenti il Centro di Competenza sulla Sicurezza della Ricerca. Non sarà un'agenzia di spionaggio, ma un hub di intelligence strategica. Il suo compito è fornire analisi basate su evidenze, creare una comunità di pratica tra gli atenei e sviluppare metodologie per valutare i rischi delle cooperazioni internazionali. L'annuncio è arrivato durante la Conferenza Flagship sulla Sicurezza della Ricerca dell'ottobre 2025, dove la Commissaria Zaharieva ha delineato misure concrete: una piattaforma di due diligence per scansionare i rischi nelle partnership e un toolkit contro le interferenze straniere.
Il principio guida, ripetuto come un mantra nei corridoi di Bruxelles, è "as open as possible, as closed as necessary". Aperta quanto possibile, chiusa quanto necessario. Una formula elegante che nasconde un dilemma spinoso. Dove tracciare la linea? Un progetto di fusione nucleare, una ricerca su materiali avanzati per i chip, uno studio sui digital twin per la sicurezza delle città: questi sono i nuovi campi di battaglia. La cooperazione con paesi terzi, come gli Stati Uniti, rimane possibile e desiderata, ma su nuove basi. Gli americani potranno partecipare a Horizon Europe come Associated Partners self-funded, pagando di tasca propria per accedere alle preziose reti europee.
"L'autonomia non è autarchia. Vogliamo attrarre i migliori talenti del mondo, non respingerli. Ma dobbiamo essere gli architetti delle nostre collaborazioni, non gli ospiti inconsapevoli. La nuova piattaforma di due diligence non è uno strumento di chiusura, ma di apertura consapevole", ha dichiarato Iliana Zaharieva alla conferenza di ottobre.
Questa tensione permea ogni aspetto della nuova strategia. Prendete il Work Programme 2026. Promuove il Clean Industrial Deal, l'Advanced Materials Act e lo European Innovation Act. Tutti puntano a creare una "quinta libertà" europea: la libera circolazione della conoscenza e dell'innovazione. Un obiettivo ambizioso che suona quasi utopico di fronte alla realtà dei fatti. Perché mentre si proclama questa nuova libertà, si erigono anche controlli.
I bandi del 2026-27 riflettono questa doppia anima. Ci sono 294,9 milioni per infrastrutture di ricerca, con 12 topic che apriranno a marzo 2026, focalizzati sulla condivisione dei dati e sui gemelli digitali per salute, clima e sicurezza. Parallelamente, 52 milioni sono già disponibili per riformare il sistema della R&I, finanziando startup accademiche e nuovi modelli di valutazione della ricerca. È un tentativo di modernizzare l'ecosistema dall'interno, rendendolo più agile e attraente per i talenti globali, mentre si fortificano i suoi confini.
La Presidenza di Cipro del Consiglio dell'UE nel 2026 ha già chiarito le sue priorità: semplificazione, competitività, resilienza. E soprattutto, riequilibrare le profonde disparità nella ricerca tra i paesi dell'Europa occidentale e quelli cosiddetti "Widening". A questi ultimi sono destinati 416,5 milioni di euro, con sei bandi in programma a partire dal 2026. Un investimento che non è solo economico, ma geopolitico. Un'Europa della ricerca più coesa è un'Europa strategicamente più autonoma.
La domanda che aleggia, però, è più profonda. Questa transizione verso una ricerca "sicura" e "autonoma" rischia di soffocare lo spirito di serendipità e di libera esplorazione che ha generato le più grandi scoperte? I ricercatori, già oppressi dalla burocrazia dei grant, dovranno ora diventare anche esperti di risk assessment geopolitico? La partita per l'autonomia strategica dell'Unione Europea non si gioca solo nei palazzi delle istituzioni o nei budget miliardari. Si gioca, silenziosamente, nella mente di ogni scienziato che deve decidere su quale progetto lavorare, con chi collaborare, e cosa osare investigare.