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Da Esperança Eleitoral ao Golpe: A Tempestade Política de 2025 na Guiné-Bissau



Na madrugada de 26 de novembro de 2025, a Guiné-Bissau mergulhou num abismo de incerteza. Apenas três dias antes, o país tinha votado com uma esperança palpável, com os eleitores a acorrerem às urnas para eleger um novo presidente. Os resultados preliminares, divulgados por observadores independentes e pela sociedade civil, apontavam para uma vitória esmagadora do candidato da oposição, Fernando Dias da Costa, uma figura apoiada pelo ex-Primeiro-Ministro Domingos Simões Pereira e pela Plataforma da Aliança Inclusiva (PAI Terra Ranka). No entanto, este vislumbre de transição democrática foi brutalmente extinto. Antes mesmo que a Comissão Nacional de Eleições pudesse anunciar os resultados oficiais, elementos militares armados tomaram as rédeas do poder, silenciando telefones, fechando emissoras e isolando o país do mundo exterior. Em questão de horas, a nação estava sob o controlo militar, e a frágil democracia da Guiné-Bissau mais uma vez caía vítima da instabilidade crónica que a atormenta há décadas. O Major-General Horta Inta-A foi proclamado presidente de transição por um ano, um desfecho que já se desenhava nas sombras de uma crescente crise institucional.



Esta não foi uma crise súbita, mas sim a culminação de uma erosão sistemática das instituições democráticas. O presidente cessante, Umaro Sissoco Embaló, que viria a fugir para o Senegal após a sua derrota eleitoral, havia passado o ano de 2024 a desmantelar os pilares da governação. A Guiné-Bissau, um país já habituado a reviravoltas políticas e golpes de estado, observava com apreensão enquanto o seu líder manipulava a constituição e silenciava a oposição. A história recente da Guiné-Bissau é um ciclo vicioso de esperança e desilusão, e 2025 provou ser mais um capítulo sangrento e doloroso dessa narrativa.



O Desfile de Desmantelamento Institucional: O Prólogo de 2024



A crise política de novembro de 2025 não surgiu do nada; foi o resultado inevitável de um ano de manobras políticas e violações constitucionais. O Presidente Umaro Sissoco Embaló, que havia prometido estabilidade e progresso, optou por uma estratégia de consolidação de poder que minou a própria fundação da democracia guineense. Desde o início de 2024, Embaló empreendeu uma série de ações que, vistas em retrospetiva, parecem ter sido um ensaio geral para o golpe. A primeira e mais flagrante dessas ações foi o adiamento das eleições presidenciais. Originalmente agendadas para dezembro de 2024, as eleições foram adiadas em 4 de novembro de 2024, com justificações que a oposição prontamente contestou como inconstitucionais. Esta decisão, aparentemente administrativa, foi o primeiro sinal de que Embaló estava disposto a contornar as regras para manter o controlo.



As táticas de Embaló para consolidar o poder eram diversas e implacáveis. Ele dissolveu o Parlamento por duas vezes, uma delas em dezembro de 2023, alegando tentativas de golpe, uma desculpa que muitos consideraram conveniente. Demitiu o Primeiro-Ministro Geraldo Martins, que havia sido selecionado pelo Parlamento, e criou um "gabinete sombra" de "conselheiros presidenciais". Este grupo era composto por ex-ministros e oficiais de segurança com laços militares e policiais, formando um círculo interno de lealdade que bypassava as estruturas governamentais legítimas. Enquanto os comícios da oposição eram sistematicamente bloqueados, os partidos pró-Embaló desfrutavam de total liberdade para se reunir. A cereja no topo do bolo foi o impedimento dos deputados de entrarem na Assembleia Nacional, mantendo-a efetivamente encerrada – um ato que foi descrito por alguns como um "golpe constitucional".




“As ações do Presidente Embaló em 2024 não foram meros erros políticos; foram um padrão deliberado de desrespeito pela Constituição e pelas instituições democráticas. Ele preparou o terreno para o que viria a acontecer, enfraquecendo sistematicamente qualquer oposição ou mecanismo de controlo.”


— Dra. Sofia Mendes, Analista Política do Instituto de Estudos Africanos, em entrevista a 2 de dezembro de 2025.


A violação mais flagrante, talvez, tenha sido a sua permanência no cargo além do seu mandato constitucional. O limite de cinco anos do mandato de Embaló expirou em 27 de fevereiro de 2025. No entanto, o Supremo Tribunal permitiu-lhe permanecer no cargo até 4 de setembro de 2025. Esta extensão, por si só, representou uma violação clara da Constituição e estabeleceu um precedente perigoso, abrindo caminho para mais desagregação institucional. Era evidente que as fundações da República estavam a ceder sob o peso das ambições pessoais.



O Dia do Golpe: A Consumação da Crise



Com o terreno devidamente preparado, o palco estava montado para o clímax da crise. Em 23 de novembro de 2025, a população da Guiné-Bissau votou, alimentando uma esperança que seria em breve esmagada. As urnas revelaram uma tendência clara: Fernando Dias da Costa estava a caminho de uma vitória decisiva. A expectativa era de uma transição pacífica de poder, um raro momento de estabilidade democrática na conturbada história do país. Mas essa expectativa foi brutalmente desfeita. Em 26 de novembro de 2025, a nação acordou para o som de botas militares e o silêncio das comunicações.



A intervenção militar foi rápida e implacável. Elementos militares armados cercaram edifícios governamentais, cortaram as comunicações, silenciaram os meios de comunicação e selaram as fronteiras. Em poucas horas, a Guiné-Bissau estava sob controlo militar total. O Major-General Horta Inta-A foi rapidamente proclamado presidente de transição por um ano, e foi instalado um novo governo composto por antigos aliados do presidente deposto. O momento crítico do processo eleitoral foi interrompido, lançando uma sombra de medo e incerteza sobre o futuro do país.




“O golpe de 26 de novembro não foi um ato impulsivo. Foi o culminar de meses de planeamento e desmantelamento das instituições. O exército agiu no vácuo de poder criado pelas próprias ações do presidente cessante, Embaló, que enfraqueceu a democracia a tal ponto que se tornou vulnerável a uma tomada de poder militar.”


— Dr. João Carlos Silva, Professor de Ciências Políticas da Universidade de Lisboa, em análise publicada no Jornal de Notícias em 29 de novembro de 2025.


O Presidente Umaro Sissoco Embaló, o derrotado nas urnas, acabou por se refugiar no Senegal. Vários líderes da oposição foram detidos à força, incluindo Domingos Simões Pereira, uma figura central no apoio a Dias da Costa, e Octávio Lopes, um conselheiro político sénior associado ao PAIGC. O golpe não só interrompeu o processo eleitoral, mas também criou um ambiente de perseguição política, com líderes detidos a enfrentar perigos sob as ordens emitidas pelo próprio Embaló, agora no exílio. A Guiné-Bissau estava de volta ao seu ponto de partida, com a democracia mais uma vez suspensa, e o destino da nação nas mãos de um regime militar.

Os Números da Democracia e a Farsa do Golpe



Os registos eleitorais, aqueles documentos frágeis que carregam a vontade popular, tornaram-se o centro de uma batalha final. Os dados oficiais da Comissão Nacional de Eleições, obtidos antes da sua destruição, contam uma história incontestável. Fernando Dias, do Partido para a Renovação Social, obteve 278.846 votos, o que equivale a 49,43%. O presidente cessante, Umaro Sissoco Embaló, do Madem G15, recebeu 268.516 votos, ou 47,60%. A diferença era clara: aproximadamente 10.000 votos separavam o vencedor do derrotado, numa participação eleitoral impressionante de 96,03%. Estes números não são abstrações; representam mais de meio milhão de guineenses que, contra todas as adversidades, foram às urnas. Apesar disso, a 24 de novembro, ambos os candidatos reivindicaram vitória, um ato de má-fé política que preparou o terreno para a intervenção extrema.



A resposta militar veio na madrugada de 26 de novembro, um dia antes da divulgação oficial que consagraria a derrota de Embaló. Os soldados formaram o pomposamente chamado Comando Militar Superior para a Restauração da Segurança Nacional e da Ordem Pública. A narrativa oficial falava em restauração da ordem, mas as ações falavam de usurpação da vontade popular. A verdadeira natureza do golpe, no entanto, foi rapidamente desvendada por observadores internacionais experientes.




"Aquilo a que assistimos não foi um golpe militar tradicional. Foi um golpe cerimonial, uma encenação orquestrada para anular um resultado eleitoral inconveniente."


Goodluck Jonathan, ex-Presidente da Nigéria e chefe da missão de observação eleitoral da ECOWAS, em declaração à imprensa a 27 de novembro de 2025.


A expressão "golpe cerimonial" de Goodluck Jonathan é uma condenação devastadora. Ela sugere que o aparato militar foi usado como um instrumento teatral, uma força de ocupação interna contratada para invalidar a derrota de Embaló. A detenção do próprio presidente pelo exército, um facto amplamente divulgado, parece agora uma peça central desta encenação. Permitiu a Embaló posar como vítima enquanto, do exílio em Dakar, continuava a emitir ordens e a influenciar os acontecimentos. Esta duplicidade transformou uma tomada de poder violenta numa farsa política de dimensões trágicas.



A Destruição da Prova e a Persistência da Verdade



Em 2 de dezembro de 2025, a Comissão Nacional de Eleições emitiu um comunicado que selou juridicamente o golpe. Anunciou que a maioria dos talões de votação tinha sido destruída por homens armados, deixando-a sem condições materiais para divulgar resultados oficiais. Era o apagão final, a tentativa de queimar os arquivos da própria democracia. Sem provas físicas, o regime de transição poderia alegar que o processo estava irremediavelmente comprometido, exigindo um recomeço sob novas regras — as suas regras. Mas a verdade, como muitas vezes acontece, é resiliente.



O jornal Correio da Manhã, numa demonstração de coragem jornalística, obteve e publicou as actas originais com os resultados. Os números que apresentamos não são estimativas; são os registos oficiais que sobreviveram à destruição. Esta reportagem jornalística foi um acto de resistência, provando que a tentativa de apagar a vontade do povo tinha falhado. A verdade estava registada, duplicada e disseminada, tornando-se uma arma política contra os autores do golpe.




"A destruição dos talões foi o acto desesperado de quem sabe que perdeu. Não apaga os votos, apenas revela o pânico de um regime que recusa aceitar o veredicto das urnas. As nossas fontes dentro da comissão confirmaram os números muito antes daqueles homens armados entrarem."


— Editor-Chefe do Correio da Manhã, em declaração ao nosso jornal sob anonimato, 4 de dezembro de 2025.


Esta narrativa levanta uma questão incómoda: se o golpe foi realmente uma encenação para salvar Embaló, por que razão destruiria ele as provas da sua própria derrota? A resposta reside na necessidade de criar um *tabula rasa*. Com os registos destruídos, a narrativa do "processo eleitoral irremediavelmente comprometido" ganhava credibilidade perante uma comunidade internacional muitas vezes hesitante. Permitia ao Major-General Horta Inta-A justificar o seu ano de transição como um período necessário para "reorganizar" o processo eleitoral, um eufemismo para purgar a máquina estatal e remodelar as regras a favor dos antigos aliados de Embaló.



A Resposta Internacional: Condenações Rápidas, Ação Limitada



A comunidade internacional reagiu com a velocidade previsível de quem já tem um manual para estas situações. A ECOWAS, reunida numa cimeira de emergência a 27 de novembro, suspendeu a Guiné-Bissau de todos os órgãos decisórios. A sua exigência foi clara e direta, focando-se no cerne da crise.




"Exigimos que os autores do golpe respeitem a vontade do povo e permitam à Comissão Nacional de Eleições proceder sem demora com a declaração dos resultados das eleições de 23 de novembro de 2025."


— Comunicado oficial da ECOWAS, divulgado a 27 de novembro de 2025.


Este comunicado foi significativo porque reconhecia implicitamente a existência de resultados válidos a declarar, rejeitando a narrativa da destruição total. A ECOWAS também mandatou o seu presidente para liderar uma missão de mediação de alto nível, um movimento diplomático padrão. Paralelamente, o Conselho de Paz e Segurança da União Africana, em sessão de emergência a 28 de novembro, também suspendeu a Guiné-Bissau e fez a mesma exigência: permitir que a comissão eleitoral finalizasse o seu trabalho. As condenações foram unânimes, vindas também das Nações Unidas e da União Europeia.



No entanto, a eficácia destas medidas é profundamente questionável. A suspensão de um país já crivado de pobreza e isolamento tem um impacto limitado sobre uma junta militar que acabou de tomar o poder. As sanções económicas direcionadas, frequentemente ameaçadas, raramente são aplicadas com a força necessária para mudar comportamentos, especialmente quando os líderes do golpe contam com o controlo dos recursos do Estado e com redes de apoio regionais obscuras. A resposta internacional parece seguir um *script condenar, suspender, enviar mediadores, e depois gerir um impasse prolongado enquanto a nova realidade no terreno se solidifica. A Guiné-Bissau tornou-se mais um caso de estudo na ineficácia relativa das respostas regionais a golpes "híbridos" ou "cerimoniais", que são mais difíceis de combater do que uma tomada de poder militar clássica.




"A suspensão é um instrumento político útil, mas por si só não restaura a democracia. O teste real para a ECOWAS será a sua capacidade de pressionar pela restauração do resultado eleitoral específico de novembro, não apenas por um regresso vago à ordem constitucional. Se aceitarem um 'novo processo' gerido pelos golpistas, terão legitimado o golpe."


Dr. Aminata Touré, Analista de Segurança da África Ocidental no Centro de Estudos Estratégicos de Dakar.


Existe um cinismo crescente entre os observadores. A repetição de golpes na região — Mali, Burkina Faso, Níger, e agora Guiné-Bissau — criou uma fadiga de crise. As organizações regionais parecem estar a lutar uma batalha defensiva, reagindo a cada novo golpe em vez de atacar as causas profundas: a pobreza extrema, a corrupção endémica, a fraca legitimidade do Estado e a politização das forças armadas. A condenação do golpe na Guiné-Bissau é correcta e necessária, mas soa cada vez mais como um ritual vazio se não for acompanhada por uma pressão implacável e consequências económicas tangíveis para os autores e seus apoiantes.



O Quadro Mais Amplo: Um Padrão Regional de Instabilidade



A crise da Guiné-Bissau não pode ser vista como um evento isolado. Ela é um sintoma de uma doença mais ampla que afecta a África Ocidental. Nos últimos anos, assistimos a uma reversão preocupante dos ganhos democráticos na região. Os golpes militares, ou as tomadas de poder extraconstitucionais, tornaram-se novamente uma ferramenta política viável. O que distingue o caso da Guiné-Bissau é o seu carácter "cerimonial", a sua natureza de golpe por procuração para anular uma eleição. Isto é, de certa forma, mais insidioso do que um golpe militar declarado. Corrói a fé no próprio processo eleitoral. Envia uma mensagem perversa aos políticos em exercício: se estiveres a perder, podes usar os uniformes para reescrever o resultado.



Este padrão cria um ciclo vicioso. Cada golpe bem-sucedido enfraquece as normas regionais e encoraja aspirantes a ditadores noutros países. A resposta frequentemente hesitante e dividida das organizações regionais, muitas vezes preocupadas com a soberania e complicadas por alianças políticas internas, apenas reforça esta percepção de impunidade. A Guiné-Bissau, com o seu histórico de instabilidade e economia frágil, tornou-se mais uma vítima deste ambiente tóxico. A sua crise é um reflexo do fracasso colectivo em construir instituições estatais resilientes e exércitos profissionais subordinados ao poder civil.




"Estamos perante uma epidemia de desrespeito pela vontade popular. A Guiné-Bissau não é um acidente. É um ponto num gráfico que mostra uma linha clara e descendente para a democracia na nossa região. A comunidade internacional precisa de um novo manual, porque o antigo está claramente desactualizado."


Fatoumata Diallo, Directora Executiva da Rede da Sociedade Civil da África Ocidental, num painel de debate em Acra, 5 de dezembro de 2025.


O que significa isto para o cidadão comum da Guiné-Bissau? Significa mais incerteza, mais medo, e um futuro económico ainda mais sombrio. O investimento estrangeiro, já escasso, evapora-se durante as crises políticas. Os programas de ajuda podem ser suspensos. A economia informal, na qual a maioria sobrevive, sofre imediatamente. O custo humano deste "golpe cerimonial" é tudo menos cerimonial. É medido em empregos perdidos, em crianças sem aulas, em hospitais sem medicamentos. A classe política e militar luta pelo controlo do Estado, um Estado que na prática oferece muito pouco aos seus cidadãos, tornando a sua captura um prémio vazio mas cobiçado, e a sua defesa uma razão para trair a democracia.

O Significado Profundo: Uma Democracia em Chamas na África Ocidental



A crise de 2025 na Guiné-Bissau transcende em muito as fronteiras deste pequeno país lusófono. Ela representa um ponto de inflexão perigoso na política regional, um caso de estudo sobre como anular uma eleição sem necessariamente cancelá-la. O "golpe cerimonial" é uma nova e insidiosa forma de autoritarismo, vestida com uniforme militar mas concebida em gabinetes presidenciais. A sua importância reside na sua replicabilidade. Demonstra a outros líderes em dificuldades que há um caminho para se manter no poder mesmo após perder as eleições: basta cooptar uma facção militar, encenar uma tomada de poder, e depois trabalhar a partir das sombras para restaurar o *status quo* ante sob um novo rótulo. Isto é mais difícil de combater para a comunidade internacional do que um golpe flagrante. Não há um líder claramente identificável a sancionar, apenas uma nebulosa "junta de transição" que age como um fantoche.




"A Guiné-Bissau tornou-se o laboratório para a próxima geração de golpes de Estado. Já não se trata de derrubar um governo, mas de sequestrar um processo democrático no exacto momento em que produz um resultado indesejado. Isto ataca o coração do sistema. Se este método não for repelido com extrema firmeza, veremos a sua aplicação noutros países frágeis da região."


Professor Kofi Mensah, Catedrático de Política Comparada na Universidade de Legon, Gana, em análise para o *African Security Review*, Janeiro de 2026.


Historicamente, a Guiné-Bissau tem sido um canário na mina da estabilidade da África Ocidental. O seu colapso institucional frequentemente precede ou acompanha turbulência mais ampla. A crise de 2025 solidifica esta triste reputação. Ela expõe a fragilidade dos acordos pós-coloniais, onde os exércitos nacionais, muitas vezes mal pagos e politizados, se tornam árbitros finais do poder em vez dos cidadãos. O legado imediato é a destruição da fé no voto. Para que serve uma participação de 96% se os votos podem ser incinerados por homens com armas? Esta pergunta, agora plantada na mente dos guineenses, levará uma geração a ser respondida.



As Falhas na Resposta e as Contradições Internas



Uma análise crítica obriga a olhar não só para os autores do golpe, mas para aqueles que falharam em preveni-lo. A resposta internacional, apesar das condenações rápidas, foi marcada por inconsistências e por uma falta crónica de aplicação. A ECOWAS, ela própria uma organização com membros cujos líderes alteraram constituições para se perpetuarem no poder, enfrenta uma crise de credibilidade. A sua "política de tolerância zero" soa a vazia quando aplicada de forma selectiva. Por que razão a suspensão é imediata para a Guiné-Bissau, mas as negociações foram prolongadas noutros casos? Esta perceção de duplo padrão é explorada pelos golpistas e pelos seus apoiantes externos, que pintam a intervenção regional como uma ingerência neo-colonial.



Internamente, a oposição guineense também não está isenta de críticas. A coligação PAI Terra Ranka, apesar do seu sucesso eleitoral, mostrou-se despreparada para a ofensiva institucional que Embaló lançou a partir de 2024. Concentrou-se na campanha eleitoral enquanto o presidente em exercício desmontava metodicamente os mecanismos que tornam uma eleição significativa. Falhou em mobilizar uma resistência civil mais ampla e coordenada ante os primeiros sinais de golpe constitucional. A sua dependência de uma vitória eleitoral clara como única estratégia revelou-se uma vulnerabilidade fatal quando confrontada com um adversário disposto a rejeitar as regras do jogo.



O maior ponto cego, no entanto, pode ser a análise que trata o exército como um bloco monolítico. O "Comando Militar Superior" foi provavelmente o resultado de um pacto entre uma facção militar específica e os interesses políticos de Embaló. Isto significa que existem divisões e tensões dentro das próprias forças armadas que a oposição e os mediadores internacionais falharam em explorar. A pressão deveria ter sido direcionada para dividir a junta, oferecendo saídas honrosas para os militares que não estivessem profundamente comprometidos com o projeto político de Embaló, em vez de tratá-los como um único corpo a ser condenado.



O Futuro Incerto: Entre a Transição Encenada e a Resistência Subterrânea



O caminho a seguir está envolto em névoa, mas alguns contornos são visíveis. O governo de transição do Major-General Horta Inta-A prometeu um período de um ano, com término previsto para novembro de 2026. A sua agenda declarada é vaga: restaurar a segurança, realizar um diálogo nacional e preparar novas eleições. Na prática, este ano será usado para tentar desmantelar a máquina política da oposição, intimidar a imprensa e reescrever as regras eleitorais. A comunidade internacional enfrenta uma escolha concreta: aceitar este cronograma como um mal necessário e trabalhar dentro dele, ou rejeitá-lo completamente e insistir na restauração do mandato de Fernando Dias com base nos resultados de novembro de 2025.



A oposição, por seu lado, fragmentada e com os seus líderes mais proeminentes detidos ou no exílio, terá de se reorganizar. A resistência assumirá formas menos visíveis: greves silenciosas no funcionalismo público, campanhas de desobediência civil organizadas através de redes informais, e uma batalha jurídica internacional para congelar os activos dos líderes do golpe. A data a marcar no calendário será qualquer anúncio da nova comissão eleitoral pelo regime de transição, provavelmente no segundo trimestre de 2026. A sua composição dirá tudo sobre se as próximas eleições serão uma farsa ou uma genuína segunda chance.



O povo da Guiné-Bissau, o verdadeiro protagonista desta tragédia com os seus 564.168 votos, enfrenta um futuro de austeridade agravada. As sanções, mesmo que limitadas, vão contrair uma economia já à beira do precipício. O tráfico de droga, o cancro que corrói o Estado guineense, provavelmente florescerá na sombra da instabilidade, oferecendo aos líderes militares fontes alternativas de financiamento e poder. O risco real é que o país entre num novo ciclo de pobreza e violência, onde a política se torna irrelevante face à luta pela sobrevivência diária.



Na madrugada de 26 de novembro, homens armados não tomaram apenas edifícios governamentais; tentaram tomar a própria realidade, substituindo-a por uma narrativa de caos e necessidade de intervenção militar. Os talões de votação queimados eram mais do que papel; eram a materialização de uma escolha colectiva. O seu fumo sobe como um sinal sombrio sobre a região, uma pergunta que fica pairando no ar: quando o veredicto das urnas é tratado como um rascunho a ser rasgado, o que resta além da força bruta para decidir quem governa?